Resumo: Desde a pré-história,
os seres humanos têm procurado entender o Universo e transformar
o meio ambiente em que vivem valendo-se das disponibilidades materiais
e da compreensão e uso dos fenômenos naturais que ocorrem
na Terra. O presente trabalho identifica e analisa alguns macro
impactos sociais causados por transformações recentes na
ambiência humana resultantes dessas atividades que, modernamente,
são consideradas como pertinentes ao campo do conhecimento
científico e do desenvolvimento tecnológico, bem como das
conseqüentes inovações. São abordadas a
priorização política dessas atividades pelos
governos nacionais, a imprevisibilidade do futuro das sociedades ainda
que a curto prazo, o descompasso entre a nova realidade social
resultante do avanço científico e tecnológico e a
capacidade de adaptação dos cidadãos e de
reorganização dos grupos ou entidades sociais para o
trato dessa nova realidade, o aumento da expectativa de vida e a
diminuição das horas de trabalho, a
produção e a competição sem fronteiras, os
impactos na educação e nas relações de
trabalho e, finalmente, a concentração de poder
político, econômico e militar.
Palavras-chave: Macro-impactos Sociais;
Conhecimento Cientifico; Desenvolvimento Tecnológico;
Inovações; Grupos Sociais; Concentração do
Poder.
Abstract: Since prehistorian times the human
beings have interested in understand the universe and to transform the
environment where they live using available materials and knowledge and
the use of the natural phenomena that occur in earth. The present work
identifies and analyzes some macro social impacts caused by recent
transformations in the human environment as result of these activities
that, modernly, are considered as pertinent to the field of the
scientific knowledge and the technological development and innovations.
Priority is given in the analysis of the political importance of these
activities for national governments, the probability to perform in
societies future in short-term; the gap between the new social reality
of the scientific and technological advance. The article looks, as
well, to the capacity of adaptation of citizens and the reorganization
of entities and social groups for working in this new reality. The
analysis go, as well, to study the increase in life
expectancy , the diminishing work time, the production and competition
played in large scale. Military, political and economic power is, also,
discussed as well as the education impact and work relationship.
Keywords: Macrosocial Impacts; Scientific
Knowledge; Technological Development; Innovations; Social Groupsp;
Concentration of Power.
Introdução
Segundo Kneller [1], em todas as
civilizações, certos homens meditaram sistematicamente
acerca do mundo e procuraram as causas de seus fenômenos na
própria natureza e não na vontade humana ou sobre-humana.
Em cada civilização, o estudo do universo seguia um
caminho próprio, explicando os mesmos fenômenos de maneira
diferente. Ao mesmo tempo, acrescente-se, outros homens dedicaram-se a
criar e produzir utensílios e obras que aumentassem as suas
habilidades e o seu conforto. Assim, sem saber, faziam o que hoje
chamaríamos de ciência, tecnologia e
inovação.
Na realidade, desde a pré-história, os homens
têm procurado entender o Universo e transformar o meio ambiente
em que vivem valendo-se das disponibilidades materiais e dos
fenômenos naturais que ocorrem na Terra, no sentido de atenderem
os seus desejos mais profundos, quase nunca explicitados, dentre os
quais destacam-se: viver mais, trabalhar menos e com menor
esforço físico, não sofrer (principalmente
não sentir sede, fome e dor), ter mais prazer (tempo
disponível para o lazer), preservar a espécie e ter poder
para impor a sua vontade em situações de conflito
individuais ou coletivos[2].
O presente trabalho aborda alguns resultados alcançados pelos
esforços humanos recentes no sentido do atendimento desses
desejos, transformados em objetivos, e que causaram impactos sociais
sentidos nos nossos dias.
A maior dificuldade enfrentada foi a escolha dos impactos a serem
abordados dentre tantos percebidos. Muitos deles já haviam sido
abordados em outros artigos do autor. Feitas as escolhas procurou-se
grupá-los em sete macro impactos de maneira a facilitar a
exposição sem idas e vindas, pois muitos são
complexamente interligados. Finalmente, a ordem de
apresentação dos macro impactos obedeceu a tentativa de
colocá-los numa ordem pretensamente lógica e
didática.
10 IMPACTO: Ciência, tecnologia e
inovações: de curiosidade e criatividade individuais
às políticas e estratégias nacionais
As transformações provocadas pelo homem eram, no
início, extraordinariamente lentas se comparadas pelos
parâmetros atuais, uma vez que a introdução de
inovações capazes de modificar significativamente o
status quo das sociedades ocorria raramente e, em muitos casos,
espaçada de séculos, A difusão e,
conseqüentemente, o uso das mesmas eram igualmente lentas, de tal
maneira que, ao longo de uma vida, tudo parecia definitivo:
hábitos, costumes, profissões, divisão do poder,
etc. Porém, gradativamente, e já ao longo da Idade
Média e da chamada Idade Moderna até o início da
Revolução Industrial, as mudanças sociais causadas
pelas inovações começam a tornar-se mais
freqüentes e profundas. A partir da segunda metade do
Século XIX, as transformações produzidas pelo
homem foram extraordinariamente aceleradas como resultado da
organização e sistematização do trabalho
voltado para a geração e uso de conhecimentos
científicos com o intuito de produzir tecnologias que
resultassem em novos ou melhores produtos e serviços que
satisfizessem os seus desejos centrais e suas necessidades imediatas.
Desde então, o conhecimento científico deixou de ser um
bem puramente cultural, para tornar-se insumo importante, senão
o mais valioso, para a geração de inovações
tecnológicas[3].
Pode-se afirmar que, ao longo da história da humanidade, a
ciência (que tem por objetivo desvendar e explicar os
fenômenos da natureza) e a tecnologia (que visa transformar a
natureza no sentido de atender desejos e necessidades humanas)
percorreram caminhos distintos, não havendo entre elas
articulação sistêmica e programada, até o
citado Século XIX. A ciência, mesmo após a
ocorrência da Revolução Científica iniciada
no Século XVII, caminhava ao sabor da curiosidade humana
sem objetivos econômicos, sendo considerada parte do corpo
cultural da nação e tratada da mesma forma que as artes.
A tecnologia, que avançava, primordialmente, por
intuição e empirismo, por "tentativa e erro", era um
assunto do interesse quase exclusivo do setor produtivo (principalmente
dos agricultores, dos artesãos, dos comerciantes e dos
exércitos). Esse período é caracterizado pelo fato
que a ciência e as técnicas utilizadas para a
produção de bens e serviços eram praticamente
independentes. As interações, quando existentes, eram
fluidas, complexas e pouco perceptíveis. Mesmo a
Revolução Industrial iniciada no Século XVIII, foi
realizada por homens sem educação sistemática em
ciência, não havendo, praticamente, intercâmbio de
idéias entre os cientistas e os inventores dos processos
industriais. Assim, pode-se afirmar que a contribuição
inicial da ciência para a Revolução Industrial
não foi a de introduzir o conhecimento científico no
processo produtivo, mas, sim a de criar uma ambiência
favorável à inovação. Somente a partir do
século XIX, o avanço tecnológico começou a
fazer uso significativo de conhecimentos científicos, quando
inovações ocorridas na indústria química e
nos usos da energia elétrica, utilizaram-se largamente dos
mesmos. A partir de então, e crescentemente, máquinas,
processos, serviços e produtos começaram a surgir tendo
por base os conhecimentos gerados pelas pesquisas científicas. A
ciência passou a suprir a tecnologia não só de
descobertas e explicação de fenômenos da natureza,
como também com o uso cada vez mais amplo do método
científico de investigação, suas técnicas
laboratoriais e a certeza da importância da pesquisa na
solução de problemas do setor produtivo[3].
Assim, já no Século XX, ao ter
início a Primeira Grande Guerra, a estreita
inter-relação entre ciência e
inovações tecnológicas já estava delineada[4]. Em conseqüência, durante esse conflito,
em ambos lados beligerantes, os cientistas foram envolvidos no
esforço de guerra pelos respectivos governos. Porém,
cumpre salientar que foi somente a partir da Segunda Grande Guerra que
passou a ocorrer ampla, sistemática e permanente
mobilização dos meios científicos e
tecnológicos nacionais não somente com o objetivo de
produzir vantagens estratégicas militares mas, também,
para o desenvolvimento de poderio político e econômico a
nível mundial, nos anos subseqüentes ao término do
conflito. A intervenção do Estado, principalmente
através das Forças Armadas, apoiando as pesquisas e
acelerando o uso dos conhecimentos resultantes para a
geração de tecnologias e a passagem destas à
produção em escala industrial, deram resultados
extraordinários em ambos os lados beligerantes.
Através da ação direta de órgãos dos
governos, do financiamento estatal e do planejamento da pesquisa e do
desenvolvimento experimental (P&D) envolvendo as indústrias,
os institutos e universidades, foram geradas inovações e
aperfeiçoados materiais e serviços que puseram em
evidência a importância estratégica da
mobilização permanente do potencial científico e
tecnológico da nação. Os avanços
científicos e tecnológicos alcançados foram
decisivos para o desfecho do conflito e na conseqüente nova
distribuição do poder a nível mundial.
Além disso, durante e após a Guerra, os resultados das
pesquisas conduzidas para fins militares tornaram-se fontes de valiosas
tecnologias e de inovações de vasto uso civil e de
elevado valor agregado, tais como: aviões à jato,
computadores, aparelhos de comunicações, energia nuclear,
novos materiais, fármacos, etc.
A partir de então, ciência e a tecnologia passaram a
fazer parte central das políticas e estratégias nacionais
dos países mais desenvolvidos. Os seus governos ampliaram a
atuação do Estado nesse campo através de seu
reconhecimento institucional, da formulação de
políticas, estratégias e ações
específicas, da criação de órgãos
especializados de apoio, incentivos e suporte financeiro, bem como
mecanismos e procedimentos facilitadores. Pode-se afirmar que os
Estados Unidos da América tornaram-se, na ocasião, o
paradigma desse processo.
O fato é que, atualmente, constata-se que as
inovações mais relevantes, que moldam as sociedades
modernas e que atendem as suas demandas cada vez mais complexas,
têm sido geradas por não mais do que duas dezenas de
países. Analisando-se a trajetória de tais países
chega-se à conclusão que todos investiram decididamente
na implantação e manutenção de um sistema
educacional de qualidade em todos os níveis, dando
atenção prioritária às ciências
exatas e às engenharias, implantaram uma robusta
infra-estrutura dedicada ao desenvolvimento científico
e tecnológico, estabeleceram um arcabouço
político-regulatório que privilegia e incentiva a
geração de inovação tanto no setor
produtivo quanto no governamental e conseguiram criar uma
ambiência nacional favorável ao progresso
tecnológico. Em conseqüência, nesses países
é possível se distinguir a existência de um
verdadeiro Sistema Nacional de Inovação e/ou
vários Sistemas Locais de Inovação, unindo, com
grande sinergia, a sociedade em geral e todos os atores envolvidos no
processo.
Na tentativa de percorrer trajetória semelhante, alguns
países em desenvolvimento tiveram sucesso na
implantação de seus respectivos "sistemas nacionais de
desenvolvimento científico e tecnológico", compreendendo
universidades, institutos, laboratórios, agências, etc. A
expectativa era que a formação de recursos humanos
adequados em universidades de pesquisa, a montagem de
laboratórios modernamente equipados em institutos de pesquisa e
em empresas, a criação de agencias de fomento e de
órgãos públicos de apoio, a
realização competente de pesquisas básicas e
aplicadas, assim como de desenvolvimento experimental e
engenharia, desembocaria em desenvolvimento tecnológico cujo
resultado seria a produção de bens e de serviços
competitivos pelo setor produtivo local. Ou seja, as
inovações seriam uma conseqüência
previsível desse sistema linear, bastando que fossem assegurados
os meios humanos, materiais e regulatórios pertinentes, e
ocorresse interação entre os atores definidos pelo
próprio sistema. As políticas de desenvolvimento
científico e tecnológico que foram implementadas tiveram
sucesso no sentido de que fortaleceram a infra-estrutura pública
de C&T e algumas empresas e instituições
individualmente envolvidas, mas não resultaram na
geração de inovações na dinâmica
requerida. Em muitos casos, não havia clareza ou
determinação de que o objetivo de todo investimento era a
produção de inovações e que estas deveriam
ocorrer, primordialmente, no setor produtivo.
Na realidade, o processo de inovação é
extremamente complexo, envolvendo muitos atores e fatores que
extrapolam aqueles contidos no conceito de "sistema de desenvolvimento
científico e tecnológico", e nem sempre percebidos numa
observação superficial de países como os EUA ou
Japão.
A inovação resulta de numerosas
interações cruzadas entre ciência, tecnologia,
pesquisa, desenvolvimento experimental, tecnologia industrial
básica (desenho industrial, normas,
metrologia,....), engenharia e outras atividades que ocorrem dentro e
fora das empresas e entre empresas, assim como da
combinação de fatores tais como políticas
públicas, recursos humanos, organização,
gestão, finanças, marketing, serviços (pós
venda), participação de alianças
estratégicas e de redes de cooperação, acesso a
fontes de informações as mais variadas, mercado,
fornecedores, etc. Nesse caso, é evidente a necessidade de uma
visão ampla desse complexo processo social para entendê-lo
quanto ao seu funcionamento para poder corrigir lacunas e
deficiências . Em última instância, a
existência, ou não, de um sistema nacional ou local de
inovação é evidenciada pelos resultados desse
complexo, ou seja, pela geração e
introdução no mercado de produtos e processos,
tecnologicamente novos, assim como de melhorias tecnológicas
significativas em produtos e processos existentes.
Em princípio, as políticas nacionais devem privilegiar as interações entre os responsáveis pela geração, difusão e uso dos conhecimentos que potencialmente conduzam a inovações, a criação de uma ambiência favorável e a superação de óbices específicos, peculiares a cada país, como, por exemplo, um baixo nível educacional da população, uma desnacionalização excessiva de setores tecnologicamente mais dinâmicos do setor produtivo ou uma desestimuladora e ineficiente burocracia.
20 IMPACTO: A dinâmica atual da
evolução científica e tecnológica e a
imprevisibilidade do futuro
Em decorrência da busca e apropriação
sistemática, e bem sucedida, de conhecimentos científicos
para a produção de inovações
tecnológicas, estima-se que, os conhecimentos
científicos têm sido duplicados, em períodos que
variam de 10 a 15 anos[5]. Evidentemente, tal
desempenho tem se refletido numa aceleração das
mudanças sociais sem precedente na história da
humanidade, comandada pela freqüente introdução de
inovações em produtos e serviços que alteram a
vida dos cidadãos, o funcionamento das
instituições e das empresas e o desenvolvimento relativo
dos países.
Os impactos das transformações tecnológicas
decorrentes dessa dinâmica sobre a vida dos cidadãos e
sobre as organizações sociais em geral, pode ser deduzida
da experiência vivida por um cidadão brasileiro nascido na
virada do Século XIX para o Século XX. Em 1906, morando
numa casa em rua de terra, com luz de lampião, fogão a
lenha e água de poço, um menino fica sabendo pelo seu pai
que um compatriota, chamado Santos Dumont, havia, em Paris, acabado de
voar num artefato mais pesado que o ar, o XIV Bis. Nessa ocasião
a França era considerada uma potência mundial. Sessenta e
três anos depois, ou seja, em 1963, esse mesmo cidadão,
agora com 70 anos, morando numa casa com iluminação
elétrica, dotada de ar condicionado, geladeira, telefone,
fogão a gás, água encanada, assistiu,
através de um aparelho de televisão, o astronauta
norte-americano Armstrong descer na Lua. Nessa ocasião os EUA
firmavam a sua posição de super potência mundial,
ancorados numa ampla hegemonia científica e
tecnológica.
Certamente se esse cidadão voltasse subitamente a viver hoje,
espantar-se-ia com os computadores pessoais, com a INTERNET, com o
telefone celular, o CD, o DVD, o MP3, o HDTV, HD DVD, as filmadoras
digitais, com os serviços remotos (banco, comércio
eletrônico, informações, educação,
etc.), com a automação industrial, a nanotecnologia,
novos fármacos, clonagem, etc...., assim como com a derrocada da
URSS e com a ascensão política, econômica e militar
da China e da Índia.
Na realidade, o acúmulo de conhecimentos, ao longo do tempo, tem resultado numa curva exponencial sem sinais de arrefecimento. A esse respeito, em 2000, a Hart-Rudman Presidential Commission do Congresso dos EUA, baseada em opiniões de especialistas, afirmou que "...os próximos dez anos trarão mais mudanças tecnológicas que o Século XX todo, e os governos serão incapazes de acompanhá-las"[6]. E isto, aparentemente, vem ocorrendo.
Diante dessa dinâmica de um mundo em constante
mutação graças aos avanços da ciência
e tecnologia, a imagem que se formula é que tudo se passa como
se estivessem indivíduos, empresas e nações
subindo uma escada rolante que se desloca, continuamente acelerada, em
sentido contrário ao movimento de todos, sendo, portanto,
necessário subir cada vez rápido para permanecer na mesma
altura. Caso não acompanhem ou suplantem a escada da
evolução científica tecnológica, os
indivíduos tornam-se profissionalmente obsoletos, as empresas
perdem competitividade e vão à falência, os
países amargam o subdesenvolvimento e uma insuportável
dependência externa do insumo mais estratégico do mundo
moderno: o conhecimento.
Na evolução científica e tecnológica
não há patamar definitivo a ser atingido, pois a escalada
é contínua, ou seja, a escada não tem fim.
Do exposto, conclui-se que, hoje, grandes desafios enfrentados pelos
países, nos níveis local e global, estão
intimamente relacionados com as contínuas e profundas
transformações sociais ocasionadas pela velocidade com
que tem sido gerados novos conhecimentos científicos e
tecnológicos, sua rápida difusão e uso pelo setor
produtivo e pela sociedade em geral. Pode-se afirmar que vivemos num
mundo aceleradamente cambiante, cuja única certeza do
amanhã é a incerteza.
Assim avulta de importância, pôr
parte dos governos nacionais através das suas
instituições, principalmente as educacionais e as de
pesquisa, assim como por parte das suas empresas, o contínuo
monitoramento da evolução científica e
tecnológica, e das mudanças sociais dela decorrentes ou
antevistas. O acesso às informações do que se
passa no planeta, o competente tratamento e análise das mesmas,
assim como previsão e avaliação
tecnológicas, passaram a ser de importância vital nas
políticas e estratégias empresariais e governamentais em
todos os níveis.
30 IMPACTO: O "hiato gerencial"
Quanto à previsão da Comissão citada acima a respeito da incapacidade de acompanhamento das mudanças por parte dos governos, estendemos que essa incapacidade atinge indivíduos, instituições, empresas e, em última instância, os governos. A razão é que a introdução de novas tecnologias, quase sempre, é uma decisão do setor produtivo, não discutido e não planejado pela sociedade. Na realidade, as alterações ambientais e comportamentais resultantes da introdução contínua de inovações tecnológicas são de tal magnitude e, às vezes, tão inesperadas, que as instituições sociais em geral, entre as quais os governos nacionais, não têm conseguido acompanhá-las e adaptar-se, enfrentando, então, sérias crises de gerenciamento. Estão, nesse caso, além dos governos nos seus diversos níveis, instituições tais como partidos políticos, religiões, forças armadas, empresas e as escolas[7].
Assim, estabelece-se um descompasso entre a nova realidade social
resultante do avanço científico e tecnológico e a
capacidade de adaptação dos cidadãos e de
reação e reorganização dos grupos ou
entidades sociais para o trato dessa nova realidade. É o que se
tem chamado de "hiato gerencial"[8].
É preciso ter presente que novas tecnologias podem alterar
hábitos, valores, prioridades e a própria visão
que o homem tem de si mesmo e do mundo, exigindo, em
conseqüência, novas regras de convivência social e,
certamente, novas práticas profissionais, nova
educação para os jovens e atualização
contínua para os adultos.
O "hiato" quando instalado pode levar os indivíduos à
obsolescência profissional e ao desajuste social, as empresas
à perda de mercados e, eventualmente, a falência, e os
governos ao descrédito.
Exemplo de "hiato" governamental comum e reincidente tem sido os
impactos de inúmeras inovações e suas
conseqüências, posteriormente sentidas, no meio ambiente ou
na saúde das pessoas. Exemplo bem atual são os crimes
praticados através da INTERNET que não constam do nosso
Código Penal, e que, ainda por cima, podem ser cometidos a
partir de outros países cujas leis podem não coincidir
com as nossas. Pode-se citar como outro exemplo a
introdução da pílula anti-concepcional no mercado
que resultou num "hiato" que atingiu os indivíduos
(mudança no comportamento feminino, relacionamento
homem/mulher,....), várias instituições sociais
(família, religião, escola,...), o crescimento
demográfico e o mercado de trabalho.
40
IMPACTO: A expectativa de vida e as horas de trabalho
Dentre os mais expressivos impactos sociais provocados pelos
avanços científicos e tecnológicos estão,
com certeza, o aumento da expectativa de vida, o aumento da
população mundial e o decréscimo das horas de
trabalho ocorridos, principalmente, nos últimos dois
séculos. Pode-se afirmar que o desenvolvimento científico
e tecnológico tem sido bem sucedido no aumento da expectativa de
vida e na diminuição das horas de trabalho, e
conseqüente aumento do tempo disponibilizado para o lazer. As
Tabelas 1, 2 e 3
apresentam alguns dados que permitem constatar tais fatos.
Passamos de 1,6 bilhões de habitantes, em 1900, para mais de 6,5
bilhões neste ano (2006), dos quais apenas 1,2
bilhões encontram-se em países desenvolvidos. A
expectativa de vida evoluiu de 14 a 15 anos na
pré-história, para 28 na Grécia Antiga, para 34 a
38 no final do Século XIX na Europa, atingindo, hoje, cerca de
80 anos nos países mais desenvolvidos (Japão,
Suiça Espanha, Suécia, Austrália e
Islândia). Entre 1800 e 1980, graças à
aceleração dos avanços tecnológicos
ocorrida no período, a expectativa de vida foi duplicada na
Europa, passando de 36 para 72 anos, aproximadamente. Trabalho de
previsão (forecast) da George Washington University[9],
realizado em 2000, prevê que a expectativa de vida
atingirá 100 anos em 2044.
Quanto às horas de trabalho, as mesmas vêm caído,
tendo chegado na Noruega a apenas 1337 horas/ano, em 2003. Na
Inglaterra, durante a Revolução Industrial, nos anos de
1780, 1820 e 1860, trabalhava-se, respectivamente, da ordem de 80, 67 e
53 horas semanais, ou seja, da ordem de 3840 a 4.160, 3216 a 3484 e
2544 a 2756 horas/ano.
Uma estimativa aproximada do aumento do tempo livre ocorrida na Europa
entre 1800 e 1980, e entre 1980 e 2003 ( usando dados da
França), é dada na Tabela 3. Pode-se
observar que enquanto a expectativa de vida foi duplicada entre 1800 e
1980, as horas de trabalho/ano diminuíram, aproximadamente, de
100.000 horas para 85.000, enquanto as horas de lazer/ano
passaram de, aproximadamente, 23.000 horas para 140.000. Em 2003, em
alguns países desenvolvidos, as horas de trabalho já
haviam caído para da ordem de 66.000, estimando-se as horas
livres como sendo de, aproximadamente, 200.000.
Embora as conseqüências desses fatos para a humanidade
sejam óbvias, principalmente as que foram e têm sido
benéficas para a vida humana, como o aumento das horas sujeitas
ao nosso livre arbítrio (lazer), algumas outras merecem
explicitação e reflexão pois fazem parte de
problemas sociais enfrentados, hoje, por grande número de
nações, a saber:
Esses problemas apontam para a necessidade de um novo pacto social
nacional e, se possível, um novo modelo planetário de
ordenação social que dê conta desses desajustes,
que se enquadram no que denominados acima de "hiato gerencial".
50 IMPACTO: A produção e a
competição sem fronteiras
O rápido desenvolvimento tecnológico da
microeletrônica, da informática, das
telecomunicações e da automação, assim como
o exponencial crescimento das suas aplicações, afetaram
de tal maneira o acesso às informações, a
organização e o funcionamento do setor produtivo, as
qualificações exigidas para o trabalho, as
relações sociais e as políticas governamentais,
que se admite estarmos vivendo a Terceira Revolução
Tecnológica ou Industrial.
Exemplo marcante é, na área tecnológica, a
engenharia industrial que sofreu, e que continua sofrendo, profundas
alterações, tanto na sua concepção e na sua
operação, quanto no seu relacionamento com os
serviços correlatos. A possibilidade atual proporcionada pelos
meios eletrônicos, permitindo as informações
fluírem instantaneamente do cliente para a fábrica e da
fábrica para os seus fornecedores, aliada à
automação industrial e os modernos meios
logísticos, tornaram possível "produzir competitivamente,
diferentes produtos, em quaisquer quantidades, melhor, mais barato e,
se conveniente, de maneira descentralizada ao longo da Terra",
atendendo cada vez mais aos desejos do usuário do bem produzido,
também espalhados pelo globo. Esta concepção vem
substituindo aquela, até então vigente, que se propunha a
"produzir, centralizadamente, cada vez mais, da mesma coisa, melhor e
mais barato", sem muitas opções para o comprador de
mercados restritos. Além disso, acessando em tempo real o
desejo dos clientes e transmitindo, também em tempo real,
informações aos supridores das matérias-primas e
componentes, tornou-se possível à fábrica produzir
"sob medida" aquilo que já está encomendado (ou já
vendido). Com tal procedimento, custos são eliminados com a
minimização de estoques a montante e a jusante da
produção propriamente dita. Tudo passa a fluir
"just in time"[10]. Evidentemente, em toda essa
cadeia, ocorre uma diminuição de pessoas
necessárias ao seu funcionamento. Em outras palavras, o
avanço tecnológico, paulatinamente, substituiu as
estruturas produtivas rígidas, estáticas, centralizadas,
com organização interna hierárquica em
pirâmide, típicas para a fabricação em massa
de produtos padronizados, por sistemas de produção
flexíveis, dinâmicos, descentralizados, organizados em
redes achatadas, capazes de atender "nichos de mercado" de tamanhos
variados.
Com a "globalização" dos mercados e da
produção, passou a ocorrer, instantaneamente, a busca
universal dos consumidores pelos mesmos bens e serviços. No caso
das indústrias, estas passaram a ter que dominar as tecnologias
que as colocassem continuamente na competição global.
Como conseqüência dessa convergência sobre o
domínio e uso das mesmas tecnologias, os produtos passaram a
diferenciar-se na competição não só pelo
"design", preço e pela qualidade, mas pelos serviços
complementarmente oferecidos (financiamento, troca,
manutenção, assistência, etc..).
A informática associada às
telecomunicações tornou possível transportar,
economicamente, enormes quantidades de informações,
criando a possibilidade do fornecimento à distância de
várias necessidades da fábrica, contribuindo para
modificar, como já foi dito, as relações entre a
produção de bens e a prestação de
serviços. As distâncias e as fronteiras nacionais deixaram
de ser barreiras nestas relações. Há uma
tendência das empresas concentrarem-se estritamente na
produção daqueles serviços, componentes ou
produtos nos quais são crescentemente especializadas e
competitivas.
60 IMPACTO: Educação, trabalho
e emprego
Ao causar profundas alterações no modo de
produção de bens e de serviços, o progresso
tecnológico modifica, em conseqüência, a
distribuição e a qualificação da
força de trabalho [11] . Contrariamente ao
que ocorria no passado, hoje profissões surgem e desaparecem em
curto tempo; qualificações para postos de trabalho
são exigidas e, em seguida, descartadas, ou seja, as
trajetórias profissionais são, em grande parte,
imprevisíveis.
Graças ao progresso tecnológico, o homem foi,
paulatinamente, sendo liberado do trabalho braçal. Vive-se
hoje na era pós-industrial na qual, nos países centrais,
cerca de 70% da força de trabalho foi deslocada para o setor
terciário tecnologicamente cada vez mais sofisticado, entre 20 e
30% permanecem no secundário em crescente
automação, e menos de 5% encontram-se em atividades
agrícolas cada vez mais intensivas em máquinas e
técnicas poupadoras de mão-de-obra não
qualificada. Embora os setores primários (agricultura,
pesca e exploração florestal) e secundário
(manufatura industrial, extrativismo, produção e
distribuição de eletricidade, gás e água,
obras de engenharia civil) da economia tenham crescido, o número
de empregados nos mesmos é, proporcionalmente, cada vez menor.
Isto se deve não somente à crescente
mecanização e automação desses setores,
mas, também, à "terceirização" de muitas
das suas atividades anteriormente verticalizadas, principalmente
aquelas classificadas como prestação de serviços,
inclusive tecnológicos. A previsão norte-americana
é que, na década atual, cerca de dez por cento dos
empregos na indústria desaparecerão.
Devido à terceirização é cada vez maior
o número de pessoas que têm freqüentemente trabalho
(atividade temporária remunerada) ,mas não
necessariamente um emprego (atividade permanente remunerada) o que
exige delas, como conseqüência, além de cultura
adequada, habilidades complementares e diversas daquelas da sua bagagem
profissional específica. Entre outras coisas, o cidadão
tem que estar preparado para gerenciar um empreendimento, um
negócio, uma empresa na qual trabalha somente uma pessoa: ele
mesmo.
Graças aos meios eletrônicos de
comunicações interativos, um número crescente de
atividades profissionais, com ou sem garantia de tempo, podem ser
realizados em casa ou a partir de casa. Basta constatar que, hoje,
até complexos projetos de engenharia, por exemplo, podem ser
executados coletivamente por profissionais espalhados pelo planeta,
trabalhando em rede.
Na medida em que as empresas são esvaziadas pela
automação e pela terceirização, vão
restando dentro delas os "novos operários". Entende-se aqui por
"novo operariado" o conjunto de trabalhadores que carrega consigo o
principal instrumento para a produção, qual seja, o seu
cérebro, que abriga os insumos vitais: informações
e conhecimentos sem os quais nada funcionará. Estes, muito
provavelmente, serão e ficarão "empregados".
Por outro lado, devido ao anteriormente mencionado aumento geral das horas livres, quer pela diminuição das horas de trabalho, quer pelo aumento da expectativa de vida, inúmeras áreas do setor terciário da economia tornaram-se extraordinariamente promissoras (lazer em geral, turismo, estética e beleza, esportes, artes, o atendimento de necessidades dos idosos, etc....).
Adicionalmente, estão em expansão nesse setor, as
chamadas "industrias da criatividade ou indústrias criativas" (
que incluem áreas de lazer), que compreendem: propaganda,
arquitetura, artes e antiguidades, artesanato, design, moda, cinema,
software interativo e de entretenimento, software em geral,
música, artes cênicas, editorial e gráfica,
rádio e televisão. Muitas dessas áreas têm
sido extremamente dinâmicas na evolução
tecnológica e esquecidas pelas políticas públicas
de geração de emprego e renda. Basta se constatar o que
se passa no País com os sistemas de produção e
distribuição fonográfica e cinematográfica.
A realidade até agora descrita, permite afirmar-se que
são cada vez maiores e mais elevadas as
qualificações exigidas para os postos de trabalhos em
qualquer dos setores de produção, fato que coloca uma
grande pressão sobre as necessidades educacionais das
populações. É óbvio, e desnecessário
enfatizar, que a capacidade científica e tecnológica
nacional é absolutamente dependente de nível educacional
adequado da população. Educação,
ciência e tecnologia (EC&T) estão intimamente
relacionadas.
Ao longo do tempo, na medida em que as tecnologias foram crescendo
em conteúdo científico, tornou-se, proporcionalmente,
cada vez menor o número de pessoas capazes de posicionarem-se
nas fronteiras dos conhecimentos nas várias áreas do
saber e, portanto, entendê-las, enquanto cresceu a
ignorância tecnológica da maioria da
população que, em consequência, não entende
minimamente como funciona a maioria dos apetrechos com que se defronta
no dia-a-dia (relógio digital, telefone celular, DVD, forno de
micro ondas, computador, controles remotos, etc...).
É preciso ter presente que o mundo em que vivemos hoje, todos os
cidadãos necessitam de conhecimentos básicos de
ciência, das tecnologias mais usadas, de matemática e
informática, continuamente atualizados. Esta é uma
exigência não só para o mercado de trabalho, mas
antes de tudo, para que o cidadão não seja um alienado,
um ignorante diante dos bens e serviços utilizados no seu
dia-a-dia. Em outras palavras o sistema educacional moderno deve, em
todos os níveis e para todas as profissões, incluir
competente e adequada educação em ciência e
tecnologia. Trata-se de uma questão não só
relacionada com a empregabilidade do indivíduo, mas uma
questão de cidadania. Adicionalmente, devido à
"globalização", a força de trabalho nacional
precisa estar profissionalmente, psicologicamente e culturalmente
preparada para atuar mundialmente[2].
Com as constantes mudanças tecnológicas, os
indivíduos que não as acompanharem, ficarão
prematuramente inabilitados para o trabalho. Serão parte do que
tem sido chamado de desemprego estrutural. A
desqualificação para o mercado de trabalho seja
através da obsolescência ou da má
formação escolar, dá origem ao que tem sido
chamado de "analfabetismo tecnológico". Os analfabetos
tecnológicos não ingressarão ou retornarão
adequadamente no mercado de trabalho nem que a economia cresça e
expanda as oportunidades de emprego e trabalho, pois não
terão as qualificações exigidas pela maioria dos
postos de trabalho criados. A expansão do setor produtivo
dá-se sempre utilizando as ultimas inovações
tecnológicas que, via-de-regra, são poupadoras de
mão-de-obra e intensivas em conhecimentos, compreendendo
complexos sistemas de gestão, operação e controle.
Evitar a obsolescência da força de trabalho é hoje
uma preocupação da maioria dos países. Tendo em
vista o custo elevado em trazer periodicamente essa força para
dentro das salas de aula, a solução que está se
ampliando, é levar os conhecimentos aos locais de trabalho
utilizando meios eletrônicos, de preferência interativos,
conforme será exposto adiante.
É hoje consenso que é necessário que o
País seja dotada de um sistema de educação de
massa do primeiro ao terceiro grau, da melhor qualidade, e capaz de
fornecer ao cidadão possibilidades de atualização
continuada, ao longo de sua vida, para o trabalho e para o lazer. Isto
é, capaz de preparar o cidadão, conforme Domenico de Masi
[12], para "o ócio e o negócio"
ao longo de sua existência. É preciso ter clareza que, em
conseqüência da dinâmica social dos nossos dias,
não há mais formação profissional terminal,
principalmente nas áreas de trabalho mais
tecnológicas. Adicionalmente, deve-se ter um quarto grau
capaz de formar pesquisadores, de produzir avanços nas
fronteiras dos conhecimentos nas diversas áreas do saber e
contribuir, efetivamente, para aumentar a capacidade endógena do
sistema nacional de inovação tecnológica, em
benefício do setor produtivo e das necessidades públicas.
No que diz respeito ao ensino superior, a situação
brasileira é lamentável. Segundo estatísticas que
constam de Relatório da Organização das
Nações Unidas [13], o Brasil é
o país da América Latina com o menor índice de
atendimento, no ensino superior, aos jovens na faixa etária de
18 a 24 anos: apenas 10% daquela faixa etária, ou 1,3% da
população total do País, o que equivale à
cerca de metade do índice da Bolívia, de um terço
da cobertura do Chile. Significa, ainda, que o País apresenta
uma das piores taxas mundiais, sendo que, na América Latina e
Caribe, somente está em pior situação o Haiti. Tal
fato é gravíssimo e, ao mesmo tempo, um paradoxo, pois o
País é uma das maiores economias mundiais, dispondo de um
dos maiores sistemas educacionais do planeta e um sistema de
pós-graduação de excelente qualidade.
Felizmente, o próprio avanço tecnológico
produziu os meios necessários para o atendimento parcial de tais
necessidades, a custos suportáveis pela sociedade, inclusive no
Brasil. Trata-se dos meios eletrônicos de
comunicação disponíveis que permitem não
só o livre acesso aos conhecimentos por parte dos
cidadãos mas, também, permitem colocá-los ao
alcance confortável dos cidadãos onde quer que eles
estejam, de maneira programada a partir de bases logísticas onde
os mesmos estão armazenados e são gerenciados. Os meios
pedagogicamente mais apropriados a serem utilizados são aqueles
que permitem maior e mais eficiente interação entre os
detentores do conhecimento e os seus demandantes, ainda que afastados
fisicamente. Assim, têm sido utilizados o correio, o telefone, o
gravador, o fax, o rádio, a televisão, o vídeo, o
CD-ROM, o DVD e a INTERNET. Tais meios, isoladamente ou
associados, permitem "empacotar" pedagogicamente e "despachar" os
conhecimentos. É riquíssima a experiência
internacional no emprego do ensino assistido por meios
eletrônicos (EAMI), podendo ser citados como bem sucedidos os
EUA, a Inglaterra, o Canadá, a Espanha, a Turquia e o
México.
Convenientemente utilizados, tanto no ensino presencial quanto
à distância, os meios citados constituem-se, ainda, num
poderoso instrumento no sentido de preparar o indivíduo a
"aprender a aprender", metodologia absolutamente apropriada para quem
vive num mundo em constante mutação. Eles facilitam a
utilização do processo educacional centrado no
esforço do aluno aprender e não, majoritariamente, no
esforço do professor em ensinar.
Tem-se assim, em mãos, graças ao avanço
tecnológico, a oportunidade fazer uma revolução no
sistema educacional brasileiro, inclusive no nível
pedagógico, e de democratizar o acesso à
educação em todos os níveis [14]
.
70 IMPACTO: O cenário
estratégico mundial : a concentração do poder
No final do Século XVI, Francis Bacon, um dos formuladores
dos pilares do que viria a ser a Ciência Moderna, já
afirmara que "conhecimento é poder"[15]. Ao
longo do tempo, e principalmente a partir do Século XIX,
tornou-se claro que a capacidade científica associada à
capacidade de inovar na geração de bens e de
serviços intensivos em conhecimentos científicos passaria
a ser fator determinante do poder relativo entre as
nações nas suas expressões política,
econômica e militar. Como foi dito anteriormente, tal realidade,
que já se delineava claramente por ocasião da 1a. Grande
Guerra, cristalizou-se três décadas depois,
após o desfecho do segundo conflito mundial.
Nos anos que se seguiram ao término do conflito, ficou
patente que a infra-estrutura científica nacional, associada
à capacidade em gerar inovações
tecnológicas materializadas em bens e serviços
globalmente competitivos, poderiam constituir-se em vantagens capazes
de superar as vantagens comparativas tradicionais entre as
nações, quais sejam, extensão territorial, terras
apropriadas à agricultura, disponibilidade de matérias
primas, de energia e de mão-de-obra abundante e barata[2]. O exemplo clássico dessa realidade é
o Japão, que apesar de ter um território de apenas 378
mil quilômetros quadrados, ser importador de energia, de
matérias-primas industriais e de alimentos, e ter
mão-de-obra das mais bem pagas do planeta é, mesmo assim,
uma potência econômica, graças à sua
capacidade tecnológica inovadora.
Essa constatação levou alguém a afirmar, com
grande sabedoria, que "no mundo moderno mais vale o que se tem entre as
orelhas do que debaixo dos pés".
Alem disso, as novas tecnologias utilizadas nos transportes e nas
comunicações, "encolheram" as distâncias,
praticamente tornaram transponíveis os obstáculos
geográficos e instantâneas as comunicações
independentemente das distâncias entre os interlocutores,
possibilitando o comando à distância, em diferentes graus,
de unidades produtivas de bens e serviços, favorecendo a
permeabilidade de informações e a gerência de
empreendimentos, mercadorias e cidadãos através das
fronteiras nacionais.
As novas vantagens comparativas, os transportes e as
comunicações, alteraram profundamente as análises
geopolíticas e geoestratégicas aplicadas a
países, blocos de países ou regiões.
Adiante serão expostas diferentes visões do
cenário geopolítico e geoestratégico mundial,
oriundas de considerações relativas à capacidade
de geração, domínio e uso das modernas
tecnologias.
Golbery[16] já observara que........"o
progresso vertiginoso da ciência aplicada e da técnica,
sobretudo no que se refere à movimentação do homem
a de suas riquezas e à difusão das idéias,
aplicadas em escala nunca vista pelos novos meios de transporte e
telecomunicações, através de todas as latitudes e
todas as longitudes e por quaisquer obstáculos antes
qualificados intransponíveis, tende a dilacerar e a explodir
todo o sistema de compartimentação espacial que vinha
caracterizando o mundo de nossos dias, desde que os
Estados-Nações surgiram e se firmaram no palco
internacional como unidades soberanas de cristalização
efetiva do poder. Neste mundo tornado, potencialmente, um
só,"........."a brusca redução das
distâncias a escalas quase provinciais, a transmissão por
assim dizer instantânea das ações e
reações entre Estados, o estreitamento dos contatos face
a face entre nações mesmo que situadas em pólos
antípodas num ecúmeno já sem desvãos nem
confins, haveria de emprestar às relações
internacionais um dinamismo potente e febril, uma multidimensionalidade
que a todos os instantes extravasa, e largamente, do campo
político tradicional para o militar, o econômico e o
psicossocial, numa complexidade desconcertante que desafia os analistas
e dificulta a tomada de decisões estratégicas, oportunas,
adequadas e eficazes".
Recentemente, Sachs[17] observando a economia
mundial nas últimas décadas, afirmou que o mundo deixara
de ser dividido por ideologias (referindo-se a Guerra Fria) para ser
dividido pela tecnologia. Segundo aquele autor pode-se grupar os
paises e/ou regiões em categorias explicitadas na Figura
1, que resulta na divisão do planeta em três partes.
"Uma pequena parte do planeta, responsável por cerca de 15% de
sua população, fornece quase todas as
inovações tecnológicas existentes. Uma segunda
parte, que engloba talvez metade da população mundial,
está apta a adotar essas tecnologias nas esferas da
produção e do consumo. A parcela restante, que cobre por
volta de um terço da população mundial, vive
tecnologicamente marginalizada --- não inova no âmbito
doméstico, nem adota tecnologias externas.
Essas regiões tecnologicamente excluídas nem sempre
reproduzem o traçado das fronteiras nacionais. Elas abrangem
áreas como o sul do México, os países andinos, a
maior parte do Brasil tropical, a África Subsaariana tropical e
a maior parte da antiga União Soviética."
Evidentemente, os países constantes da primeira categoria
dominam o cenário mundial política, econômica e
militarmente, estabelecendo "as regras do jogo" e a nova ordem na
distribuição da riqueza e do trabalho a nível
global. Adicionalmente, os países líderes dessa
nova geografia do poder especializaram-se na produção de
bens e de serviços nos quais é intensiva a
agregação de valores intangíveis, minimizando o
seu envolvimento na produção de comodities e de produtos
manufaturados intensivos em energia, matérias primas e
mão-de-obra. No fundo, tornaram-se grandes exportadores de bens
intangíveis, basicamente conhecimentos e valores
simbólicos.
Três fatos têm contribuído para aumentar o hiato
científico e tecnológico existente entre os desenvolvidos
e os demais países: as disparidades econômicas e sociais
dos atores envolvidos, a dinâmica atual da evolução
da ciência e da tecnologia e a intensa competição
global que tende a dificultar a cooperação vertical. O
espectro de tecnologias centrais no atual paradigma de
produção de riquezas, principalmente as conhecidas TICs
(Tecnologias de Informação e de
Comunicação), não têm sido difundido e
dominado na amplitude e profundidade desejáveis para os
países em desenvolvimento.
Porém,é preciso considerar que a difusão e o
domínio das tecnologias centrais, impregnadas de conhecimentos
científicos, também não é um problema
trivial. Na realidade, as tecnologias de base empírica
são facilmente entendidas e, portanto, sua cópia e
produção por empresas retardatárias, por exemplo,
é uma questão de oportunidade e de disponibilidade
econômica. Por sua vez, por serem fruto da
aplicação de conhecimentos científicos, as
tecnologias modernas mais relevantes e seus processos de
produção, não são facilmente compreendidos
e, conseqüentemente, são extremamente difíceis de
serem copiadas. Isto é, são altamente
discriminatórias: quem não tiver competência
científica e capacidade tecnológica estará
condenado à periferia, mesmo que disponha dos demais fatores de
produção (capital, mão-de-obra e
matérias-primas).
A geração de tecnologias de base científica
exige, num ambiente favorável à criatividade e à
inovação, acúmulo de capital para investimentos
contínuos em pesquisa, desenvolvimento experimental e
engenharia, mobilizando cérebros com competência em amplo
espectro de conhecimentos e capacidade gerencial para produzir,
competitivamente, novos bens e serviços.
O resultado disso tem sido a concentração do poder em
todos os níveis. No nível individual, o
extraordinário valor e a importância do "novo operariado",
que tem dado origem a uma nova visão das relações
capital/trabalho. No setor empresarial observa-se a fusão de
empresas, a formação de grandes conglomerados
tecnológicos não confinados a fronteiras nacionais. Neste
caso, constata-se que quanto mais impregnada de ciência for o
produto ou as tecnologias de produção de um bem ou de um
serviço, menor é o número de empresas competindo
nos mercados. Finalmente, de uma certa maneira, a mesma coisa
está ocorrendo ao nível de países. Observa-se,
desde a segunda metade do século passado, a tendência dos
países a aglomerarem-se em torno de fortes lideranças
científicas e tecnológicas para formarem blocos
econômicos e, por extensão, políticos e militares [18] .
No dizer de R. Dreifus[19,20]
, os avanços científicos e tecnológicos em geral,
e os avanços das comunicações e dos
transportes em particular, e a ação das empresas
multinacionais, dinamizaram não um, mas três grandes
processos de transformação: a
"mundialização" dos estilos, usos e costumes,
hábitos e da cultura (metanacional), a
"globalização" tecnológica, comercial, da
produção, dos mercados e das finanças
(transnacional) e a "planetarização" da gestão e
da regulamentação (supranacional).
Certamente os processos em questão têm gerado, em grande
parte do planeta, preocupantes problemas que são resultantes da
acelerada dinâmica das transformações sociais e por
envolverem relações extremamente assimétricas
entre atores do cenário, ou seja, de um lado países
centrais, ditos desenvolvidos, com enorme poder de pressão e
retaliação, e suas empresas globais, e, do outro, os
paises periféricas, sujeitos a regras impostas, com suas
empresas, quando nacionais, com atuação primordialmente
local. Há ainda que se acrescentar o conflito entre os
interesses micro econômicos das empresas globais, guiadas pelo
lucro e pela supremacia em mercados sem fronteiras, e os interesses
macro econômicos dos estados nacionais com suas demandas sociais
e busca de preservação de soberania. Os interesses
nacionais e os das empresas se superpõem, mas só
coincidem nos paises centrais nos quais se localiza a enorme maioria
das sedes das empresas globais. Neste caso fundem-se os interesse
corporativos e a ação econômica, política,
diplomática e militar dos estados nacionais.
Diante disso o quê se tem observado?
A "globalização" das finanças e da
produção está dominada e capitaneada por empresas
de não mais do que duas dezenas países, não
dispostas a abrir mão do gozo de subsídios, reservas de
mercado e barreiras não alfandegárias, mas que exigem
abertura total e irrestrita dos mercados dos outros, e que são
respaldadas pelos seus governos. A produção tende a se
localizar de acordo com as chamadas "vantagens comparativas
locacionais" ( mão-de-obra barata e abundante, disponibilidade
de matéria-primas, energia, frouxa regulamentação
ambiental, acesso à poupança local, etc...).
A "mundialização " dos costumes e da cultura, tende a
impor aquelas existentes nos países centrais devido ao poderio
econômico e supremacia tecnológica dos mesmos, o que, sob
o ponto de vista antropológico, não deixa de ser
lamentável. O consumo imitativo das sociedades avançadas
se espalha até aos grotões do "terceiro mundo".
Quanto à "planetarização" da gestão e da
regulamentação, ela está se dando na
direção requerida pelas empresas globais respaldadas
pelos seus respectivos governos nos fóruns multilaterais e
organismos internacionais, tais como FMI, OMC, WB, etc..... Esses
órgãos, amplamente dominados pelos países centrais
têm imposto regras "globais" de gestão que tendem a
enfraquecer os estados nacionais periféricos, fator essencial
para que as suas empresas tenham minimizados os seus problemas e maior
liberdade de ação no exterior.
Para constatar o que se está afirmando sobre a
"globalização" e a "planetarização", basta,
como exemplo, uma análise do que vem ocorrendo na Rodada de Doha
da OMC.
Como conseqüência do cenário acima exposto,
observa-se uma tendência dos paises periféricos se unirem
para compensarem as assimetrias apontadas, partindo para um
enfrentamento mais forte quanto aos aspectos negativos do processo
civilizatório em marcha.
À visão dos processos percebidos por Dreifus,
acrescente-se que, paralelamente, está ocorrendo a
"satelitização" de países em torno de poucos
"sois". Ou seja, as mais fortes lideranças dos países
centrais estão impelindo os países retardatários
no desenvolvimento a gravitarem em torno dos mesmos, os "sois" de cada
sistema planetário, complementando e ampliando assim o seu Poder
Potencial, com reflexos positivos no Poder Efetivo[21].
São os chamados "blocos econômicos" regionais ou
sub-regionais, dos quais os mais importantes são: os EUA
liderando o NAFTA e propondo a ALCA, e a União
Européia-EU, liderado tecnologicamente pela Alemanha,
Inglaterra e França e avançando para o Leste Europeu e,
possivelmente, projetando-se para a África.
Longo [7] observando o cenário
estratégico mundial no início dos anos 90 do
Século XX, apresenta uma explicação para a
racionalidade embutida na formação de blocos de poder nos
níveis global ou regional.
O Poder Potencial (PP) de um país num dado instante de sua
história, comparativamente a de outros países, representa
a sua disponibilidade de condições físicas capazes
de propiciar a geração de riqueza e poder. A sua
avaliação não leva em consideração
análise subjetiva: trata-se de uma fotografia do país.
Refere-se a uma condição estática, semelhante
à de uma caixa d'água: quanto mais volume e maior a
altura em que estiver colocada, maior a energia disponível para
ser transformada em trabalho (Figura 2). Ele
está associado, basicamente, ao território nacional e
à população existente sobre o mesmo ou capaz dele
vir a suportar, sendo passível de mensuração
objetiva. Exemplo de análise do território seria:
extensão total (Tabela 4), forma e relevo,
localização geográfica, fronteiras terrestres e
marítimas, águas internas, extensão de desertos e
de geleiras, terras apropriadas à agricultura e à
pecuária, disponibilidade de matérias-primas e de fontes
de energia, etc. Quanto à população: número
de habitantes, sua distribuição e mobilidade espacial,
etnias, línguas, religiões, etc. Dentre os
parâmetros listados, alguns valorizam (Ex: fronteiras bem
definidas e estabilizadas) e outros depreciam o Poder Potencial (Ex:
afastamento dos centros dinâmicos da economia mundial).
O Poder Efetivo (PE) de um país, num dado instante,
está associado à sua capacidade em transformar em riqueza
e poder as disponibilidades físicas, próprias ou de
terceiros. Uma caixa d'água grande e bem elevada (alto PP),
ligada a uma turbina eficiente, gera trabalho útil (alto PE),
como esquematizado na Figura 2. Ele pode ser
avaliado por parâmetros econômicos (PIB e renda per
capita, exportações e importações,
consumo de energia elétrica ou de aço/habitante,
dispêndio nacional em C&T e P&D , etc.), psico-sociais
(dispêndios com educação e saúde,
expectativa de vida da população, médicos e leitos
hospitalares/habitante, grau de escolaridade da
população, etc.), políticos (regime
político, estabilidade interna, presença internacional,
etc.) e militares (dispêndio nacional com defesa, efetivo das
Forças Armadas, capacidade de produção
autônoma de material de emprego militar, grau de
atualização tecnológica do equipamento, etc.). As
Tabelas 5 e 6, apresentam alguns
dados referentes ao PE de alguns países.
A exigência para que um país se torne Pólo de
Poder Mundial (PPM) é que o seu PF não seja
vulnerável a fatores externos, principalmente pouco
susceptível a embargos ao acesso a necessidades
estratégicas imprescindíveis à sua soberania,
à sua auto-determinação. Ou seja, exige PE dotado,
em princípio, de PP próprio ou complementado de maneira
confiável. Esta condição pode ser alcançada
por um país ou por um bloco de países estrategicamente
associados.
Conforme salientado anteriormente, os avanços da
ciência e da tecnologia causaram alterações na
visão e no valor relativo das vantagens comparativas
tradicionais entre países, ou seja, o domínio e o uso de
C&T na criação de inovações pode criar
vantagens que superam as disponibilidades físicas e até
financeiras. Assim, tem sido possível a alguns países
construírem, isoladamente, um elevado PE, sem possuírem
PP, desde que tenham alta capacidade científica e
tecnológica, que exige alto nível educacional da sua
população. Exemplo dessa situação é
o Japão que, hoje, tem extraordinário PE, graças
à sua competência em CT&I, mas que é totalmente
dependente de complementaridade externa essencial no que diz respeito
ao seu PP (energia, matérias-primas industriais, alimentos,
etc.) e que, além disso, tem uma mão-de-obra das mais bem
pagas do mundo. Trata-se, portanto de PE extremamente
vulnerável, pois não resistiria a um bloqueio, a um
cerceamento comercial. Assim, isoladamente, não é, e nem
será, um PPM. Outros exemplos poderiam ser dados em suporte
à afirmativa de que é possível estrategicamente a
um país mal dotado de PP, constituir um elevado PE, desde que
disponha de um eficiente sistema nacional de inovação
que, como vimos, requer elevado nível educacional da
população e capacidade científica e
tecnológica.
Ao contrário, a história não registra nenhum
país que dispondo de alto PP, tenha construído elevado PE
sem que tivesse, ao mesmo tempo, população altamente
educada e elevada capacidade em C&T para os padrões da
época. A história mostra, ainda, que países
dotados de PP mas sem capacidade de transformá-lo autonomamente
em PE, acabam cedendo seu PP para ser explorado por outros
países, ou seja, complementam o PP de terceiros. Essa
cessão pode se dar de diversas maneiras: exportando suas
matérias-primas de valor industrial (exploradas por empresas
estrangeiras ou nacionais), permitindo e facilitando desmedida
desnacionalização de seu setor produtivo, inclusive de
setores estratégicos para a sua segurança, etc... Os
leitores certamente serão capazes de deduzir bons exemplos dessa
situação.
A conclusão dessas constatações é que a
transformação de PP próprio ou de terceiro
(caixa d'agua disponível) em PE (turbina) se dá
através da capacidade endógena em ciência,
tecnologia e inovação, que exige alto grau educacional da
população (Figura 2).
Os EUA são, no momento, o mais poderoso PPM, Dotados de
PP dos maiores do planeta, e tendo uma população com
elevado padrão educacional capaz de manter consistente e
prolongada liderança em CT&I, os EUA construíram um
PE que se pode considerar, nas condições atuais,
não vulnerável. Sob o ponto de vista
geoestratégico, são privilegiados com uma
posição geográfica que lhes permite projetar suas
ações políticas, econômicas e militares
tanto através do Oceano Pacífico quanto do
Atlântico No momento, procuram reforçar o seu PP
através do Acordo de Livre Comércio das Américas
(ALCA), após grande avanço nessa direção
com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (
NAFTA), um típico exemplo de
"satelitização".
Quanto à União Européia, esta se enquadra
perfeitamente como mais um exemplo em favor da
argumentação exposta. A considerável
competência científica e tecnológica
européia achava-se espalhada em países de baixo PP, tais
como a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Itália,
Holanda, Suíça, Bélgica e Áustria, todos
abrigando populações com elevado grau de escolaridade. Ao
unirem-se, passaram a ter todas as condições para
erigirem um PPM. A tendência de "satelitização",
neste caso, é na direção dos países
relativamente menos desenvolvidos da própria Europa, e do
Leste Europeu e da África.
A nível global, pode-se deduzir que países sem PP e,
simultaneamente, sem capacidade científica e tecnológica,
tenderão, inexoravelmente, a orbitar em torno de algum "sol".
E o Brasil?
O Brasil é a letra B dos países chamados de BRICs, ou
seja, o conjunto de países com enorme Poder Potencial (PP) e que
tem possibilidades de terem grande Poder Efetivo (PE) não
vulnerável, ou seja, no nosso entendimento, tornarem-se
Pólos de Poder Mundial (PPM). São eles: Brasil,
Rússia, China e Índia, às vezes também
referidos como "baleias". Os quatro, em maior ou menor escala,
já se posicionam como "sóis" regionais ou sub-regionais.
A situação do Brasil é clara: dotado de
extraordinário PP, um dos maiores do planeta, falta-lhe
disposição política em EC&T para
construção de PE soberano, e determinação
estratégica visando ser um PPM. A
determinação estratégica deve se traduzir entre
outras coisas, na busca da superação de vulnerabilidades
que enfraquecem o seu PE ou, em caso de conflito, afetar diretamente a
sua população, como é o caso dos fármacos,
apenas para dar um exemplo.
Referências bibliográficas
[1] KNELLER, G.F., "A ciência como atividade humana", Zahar
Editores e EDUSP, São Paulo, 1980.
[2] LONGO, W.P., "O desenvolvimento científico e
tecnológico e seus reflexos no sistema educacional", Revista TC
Amazônia, ano 01, no 01, pgs 08-22, Manaus,2003.
[3] LONGO, W.P., "Ciência e Tecnologia: evolução,
inter-relação e perspectivas". Anais do 9º
Encontro Nacional de Engenharia de Produção, vol. 1, 42,
Porto Alegre, 1989.
[4] LONGO,W.P., "Ciência e Tecnologia e a Expressão
Militar do Poder Nacional", TE-86 DACTec, Escola Superior de Guerra,
Rio de Janeiro, 1986.
[5] PRICE, D.S., "Little science, big science", Columbia University
Press, New York, 1963.
[6] "The Hart-Rudman Presidential Commission on the future of national
security", Phase II, Washington D.C., E.U.A, 2000.
[7] LONGO, W.P., "Desenvolvimento científico e
tecnológico: conseqüências e perspectivas", Escola
Superior de Guerra, CAESG TI-91, Rio de Janeiro, 1991.
[8] OLIVEIRA, J.M.A., "Origem e evolução do pensamento
estratégico", Escola Superior de Guerra, Rio de Janeiro, 1986.
[9] "The technological revolution", Marubeni Economic Report ,
Marubeni Corporation Economic Research Institute, Dezembro 2002.
[10] LONGO,W.P., "O desenvolvimento científico e
tecnológico do Brasil e suas perspectivas frente aos desafios do
mundo moderno", coleção Brasil: 500 anos, vol. II,
Editora da Universidade da Amazônia, Belém, 2000.
[11] LONGO, W.P., "A visão internacional e os institutos de
pesquisa", Longo, W.P., Anais do Congresso ABIPTI 2000 da
Associação Brasileira das
Instituições de Pesquisa Tecnológica , p. 21 a 36,
Fortaleza, 2000.
[12] De MASI, D., Entrevista, Correio do Livro,
Abril/Junho, Rio de Janeiro, 1999.
[13] O.N.U., "Novas tecnologias e
desenvolvimento humano", Relatório, 2001.
[14] LONGO, W.P., "A viável democratização ao
acesso ao conhecimento", Revista Lugar Comum/UFRJ 9-10, p.
de 195 a 207, Rio de Janeiro,Setembro 1999 a Abril 2000.
[15] BACON, F., "Meditationes Sacrae. De Haeresibus.", Londres,
1597.
[16] GOLBERY do Couto e Silva,"Conjuntura política nacional , o
poder executivo & geopolítica do Brasil", José
Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1981.
[17] SACHS, J., "A new map of the world", The Economist, Abril de 2000
[18] LONGO W.P. e BRICK, E.S., "Entraves ao acesso à
tecnologia", Anais do IV Seminário Internacional de
Transferência de Tecnologia, Rio de Janeiro, 1992.
[19] DREIFUSS, R. A., "A época das perplexidades", Editora
Vozes, Petrópolis, RJ, 1997.
[20] DREIFUS, R.A., "Transformações: matrizes do
Século XXI", Editora Vozes, Petrópolis, 2004.
Sobre o autor / About the Author:
Waldimir Pirró e Longo
wlongo@nitnet.com.br
Engenheiro Metalúrgico [IME], Master of Engineering e Ph.D.
[University of Florida], Livre Docente [UFF]. Atualmente consultor em
educação, ciência, tecnologia e
inovação.
Anexos







