Resumo: A informação quando
referencia o homem ao seu destino participa do seu caminho ao
estabelecer suas referências para percorrer a sua odisséia
individual no espaço e no tempo. A essência do
fenômeno da informação se efetiva entre o emissor e
o receptor, quando acontece uma transferência e
apropriação de um conhecimento. Assim,
adequadamente assimilada, a informação, modifica o
estoque mental de saber do indivíduo e traz benefícios
para o seu desenvolvimento pessoal e da sociedade em que ele
vive. Como serão as pessoas do amanhã em um mundo
em que a escrita se torna cada vez mais posicionada em estruturas
digitais? A principal indagação, discutida no texto,
é como acontecerá a apropriação da
informação e geração do conhecimento em um
cenário onde a consciência humana já tenha e os
sentidos condicionados pelo formato digital dos textos. Há
indicações que textos digitais com elos de
saída permitem uma assimilação mais abrangente e
mais individualizada. Contudo, fica claro que, o acesso e a
apropriação da informação digital é
a extensão de uma competência digital adequada.
Palavras-chave: Apropriação da
Informação; Informação Digital; Estrutura
de Informação; Fluxos de Informação; Mitos
e Lendas; Forma da Informação; Hipertexto; Fluência
Digital.
Abstract: Information refers man to his
destiny and leads his way in his personal adventure in space and time.
Information generate knowledge and this is the essence of it
phenomenon. It is discussed in the paper how it will be people of
tomorrow in a world where most of the documents will be in a digital
basis. What will happen with information assimilation in this digital
environment? It seems that digital texts with hyperlinks give
opportunity to a broader and more subjective information appropriation
for knowledge. But how to deal in this new document world when digital
literacy is a barrier to access and go thought digital structures of
information.
Keywords: Information Appropriation; Digital
Information; Information Structure; Flow of Information; Myths and
Legends; Form of Information; Hypertext; Digital Literacy.
A informação quando referencia o homem lúcido [1] ao seu destino participa do seu caminho ao
estabelecer suas referências para percorrer a sua odisséia
individual no espaço e no tempo.
Associada ao conceito de ordem e de redução de incerteza identifica-se com a organização dos sistemas de seres vivos racionais. É aqui neste artigo, somente, uma reflexão da qualidade do fenômeno, quando entre seres humanos, onde existe um emissor, um canal de transferência, um código de registro comum e um destinatário.
A essência do fenômeno da informação se efetiva entre o emissor e o receptor, quando acontece uma transferência e apropriação de um conhecimento. Assim, adequadamente assimilada, a informação, modifica o estoque mental de saber do indivíduo e traz benefícios para o seu desenvolvimento pessoal e da sociedade em que ele vive.
A questão que se coloca, agora, é o trabalhar com a informação enquanto a tipologia de sua estrutura se suporte e considerar a sua ingerência na produção do conhecimento.
A produção da informação segue processo de transformação com ações definidas e se apóia em procedimentos orientados por uma racionalidade que lhe é específica. A informação como precursora de uma intenção de gerar conhecimento no indivíduo e na realidade pode ter diferentes alicerces de registro e pode trilhar variados fluxos relativos à sua administração e a distribuição.
A estrutura de informação é aqui definida como qualquer base [2] de inscrição de informação que, a aceite como tal; um conjunto de elementos que formam um todo ordenado na narrativa com seguimento e finalização coesa de enunciados.
Um segundo tema é a organização, controle e distribuição destas estruturas de significado, de maneira correta, política e socialmente, considerando a sua ingerência na produção do conhecimento.
Os alicerces de informação têm variada tipologia. Um texto é conjunto de expressões, que a escrita fixou, em uma base, com multiplicidade de configurações de uma língua escrita. Constitui um todo unificado passível de ser distribuído por um canal de transferência. O seu discurso de significação é uma elaboração do autor, mas quando distribuído o texto associa em sua amplitude: a leitura, o receptor e a sua interpretação ou reconstrução. É feito de escritas múltiplas e de várias culturas que entram em diálogo e contestação que se acumulam no leitor. No leitor está o ambiente exato em que se inscrevem todas as citações das quais uma escrita é feita; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino e este destino não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia (Barthes, 1987).
Uma estrutura de informação pode ser linear, seqüencial e centrada em uma narração continua com encadeamento que estabelece um começo, seu desenrolar e o fim de enredos fechados. Um texto pode, também, ser acêntrico e sem destino certo, composto de varias estruturas que se narram em paralelo.
A escrita deu ao homem valores visuais e ocasionou uma consciência fragmentada ao contrário da convivência nos espaços auditivos, onde o convívio de enunciados multivariados, com muitas vozes ao mesmo tempo. Foi a tipografia que terminou com a cultura auditiva tribal e a cultura escrita multiplicou possibilidades de se enunciar no tempo e no espaço. O homem quando com seu pensamento linear e seqüencial qualificou, organizou e classificou e assimilou as suas informações em modo hierárquico em uma série contínua de graus ou escalas, em ordem crescente ou decrescente; uma organização por classes indicando suas subordinações com relação à herança no universo das palavras.
A passagem da civilização tribal ao costume da escrita e da tipografia foi uma transformação tão profunda no indivíduo e para a sociedade, como vem sendo a passagem da cultura escrita para as redes digitais nesta.
No mundo digital e a escrita acêntrica abre uma nova conformação no relacionamento com o receptor e com o conhecimento. O texto entrelaçado com outras estruturas traz uma vinculação e um emaranhado de cadeias imprevisíveis sem uma qualificação hierárquica. Conhecer e se apropriar dos enunciados alinhavados nos textos paralelos é como construir uma bricolagem, onde cada junção de pedaços já existentes necessita uma permissão de assimilação no ajuntamento do saber. Esta bricolagem só se fecha no infinito, mas é individualizada pelas configurações e permissões do conhecer, de cada caminhante, no transcurso passear por estes mosaicos.
Assim, a estrutura de informação é um evento privado na sua criação e que se completa em um tempo finito; sua circulação e transferência ocorrem no espaço público, para um número indefinido de leitores. Mas todo ato de interpretação e apropriação é uma condição privada e de solidão fundamental.
O homem já chegou à lua e já desceu às profundezas do oceano, mas existe ainda um mistério a ser desvendado que desafia cientistas do mundo inteiro: os meandros do cérebro humano.
Como serão as pessoas do amanhã em um mundo em que a
escrita se torna cada vez mais posicionada em estruturas digitais? A
principal indagação é como acontecerá a
apropriação da informação e
geração do conhecimento em um cenário onde a
consciência humana já tenha e os sentidos condicionados
pelo formato digital dos textos.
A apropriação da informação revela um
ritual de interação entre um sujeito e uma
determinada estrutura de informação, que gera (no
sujeito) uma modificação de suas
condições de entendimento e de saber acumulado; a
apropriação representa um conjunto de atos
voluntários, pelo qual o indivíduo reelabora o seu mundo
modificando seu universo de conteúdos. É uma
criação em convivência com suas
cognições prévias e com sua
percepção; é um inicio de algo que nunca iniciou
antes e que resultará sempre em uma modificação
como conseqüência do procedimento, ainda que,
possa ocorrer uma volta e permanência ao seu estado inicial de
saber.
A assimilação da informação é uma
condição necessária ao receptor para validar
a informação acessada. Não é suficiente que
a mensagem seja intencionalmente planejada na
distribuição e para o acesso. O conteúdo deve
atingir espaços semânticos compatíveis e
harmoniosos para a sua compreensão e
aceitação.
A percepção de um texto linear, fechado estruturalmente,
possui um desenlace cognitivo diferente de uma
apropriação da informação digital
hipertextualizada. No texto linear a interatuação com a
estrutura física possibilita uma condição de
reflexão, com trocas de enunciados entre receptor e texto em uma
relação biunívoca. O texto linear é dito
fechado devido ao seu estado de acabamento. A sua abertura
referencial ou de idéias é uma opção e uma
possibilidade pós-leitura.
Textos paralelos e em rede permitem na sua interação, um
dialogo, receptor-texto, com uma troca de enunciados multiespaciais e
assíncronos. O diferencial está na possibilidade de
conversação do sujeito com a estrutura e a na sua
expectativa de ir e vir, para dialogar, ao mesmo tempo, com escrituras
conexas que se cruzam para expandir, referenciar, restringir e agregar
conteúdo ao tema e as idéias de um texto central. Esta
potencialidade existente nos textos paralelos, os hipertextos, em nada
se relacionam com o código lingüístico que, apenas,
deve ser sempre comum, para o entendimento entre a escritura emissora e
um sujeito receptor.
Não estamos usando a linguagem para diferençar o texto
linear do hipertexto; embora reconhecendo a potencialidade de uma
linguagem multimídia que um hipertexto comporta. Não
há diferenciação de linguagem nas diferentes
escrituras, mas sim uma diferença entre geografias
semânticas; e esta diferença é estrutural, nunca
uma disputa de sintaxe ou de ortografia. As escrituras abertas e
fechadas têm configuração modificada pelo arranjo
estrutural e pela potencialidade da existência e da amplitude de
um jogo de enunciados entre os conteúdos, o pensamento e o
indivíduo. É, ainda, uma configuração de
relações subjetivas, tanto na geração
quanto na recepção, e nada tem a ver na essência da
significação com máquinas e suas regras de
funcionamento ou um computador e sua programação [3].
O processo cognitivo de apropriação do conhecimento
através da escrita, pensando intuitivamente, é
diferenciado e é isto o que deveria ocupar os estudiosos da
transferência de informação: como esta
mudança na estrutura da escritura se reflete na qualidade da
assimilação do conhecimento para o
indivíduo.
As novas tecnologias de informação e sua
distribuição ficaram muito atreladas ao computador e
algumas de suas linguagens e sua programação. Quando
falamos em novas tecnologias de informação pensamos de
imediato no computador, na telecomunicação e na
convergência da base tecnológica. Contudo, o instrumental
da técnica, apesar de indispensável, é uma pequena
conquista, são gadgets
efêmeros que acompanham a sua infraestrutura, conjuntos mutantes
e ilusórios de fios, fibras óticas, circuitos, pixels de
fósforo e raios catodos, formando os esqueletos [4]
de uma criação e distribuição da
informação. Contudo, estes instrumentos se aprimoram a
cada dezoito meses, para falar de um tempo, reaparecendo melhores e
mais potentes.
As reais modificações advindas das tecnologias intensas,
trazendo ao cenário uma nova articulação com o
saber, são as alterações relacionadas ao tempo de
acesso e a disponibilidade de ir aos espaços de conteúdo;
as condições de interatividade e interconectividade entre
o acesso o receptor e a informação. Estas
transformações estabeleceram um novo relacionamento em
meio ao gerador e o receptor, e estas são as
mudanças que, em sua essência, ficarão para
sempre.
A relação de tempo e espaço da transferência
de enunciados se modifica e se liberta da forma estática e
fechada no acabamento. Estar e permanecer em um espaço de
informação é uma decisão que, pode ser
modificada na velocidade de uma comutação. Passado e
futuro desabam no presente fazendo deste a única dimensão
do tempo no lugar de apropriação da
informação. Tecnologias aproximadas que se cruzam
em benefício do receptor.
A velocidade e modalidade de acesso modificam nossa sensibilidade e
competência cognitiva. A convergência digital inseriu um
excesso de imagem e som na estrutura de informação. A sua
assimilação lida com a influência da
incidência de um mundo de imagens pré-fabricadas. A
solidão fundamental, essencial para a aceitação e
apropriação da informação, está
assombrada pelo deslumbramento de imagens e sons que habitam os
documentos digitais em rede. Embora possa se intuir que o conhecimento
apropriado via hipertexto seja mais fácil e mais amplo,
considerando um mesmo tema, fica a pergunta: como serão as
pessoas do amanhã tendo cada vez mais contato com a
informação digital em estruturas abertas e
acêntricas que levam ao rumo de textos paralelos?
Por suposição podemos indicar que o conhecimento seria
mais cosmo apropriado pelo usuário, embora talvez mais
fragmentado. A tecnologia da informação já trouxe
profundas modificações em áreas como a medicina
pelo diagnóstico a distância, na análise do DNA, na
engenharia pelo exame de protótipos e projetos em realidade
virtual, na geologia com o geoprocessamento, na educação
com o aprendizado à distância, para citar alguns exemplos.
Uma experiência [5] entre a escrita digital e a
sua assimilação foi conduzida em 1984- 1985, por
Jean-François Lyotard, na qual Jaques Derrida participou.
Lyotard realizou o um teste de escrita digital quando de uma
Exibição por ele conduzida e chamada"Lês
Immatériaux" [6]. Uma parte do evento todo
consistia em um experimento de geração e
apropriação de informação em uma estrutura
digital. Vinte e seis autores de diferentes áreas foram
convidados a escrever, em um editor de texto de um computador, um texto
de cinqüenta palavras sobre as sua visão pessoal da
relevância da Exibição. Cada escrita ficava
armazenada no computador e os autores acresciam seu texto ao texto
total já escrito e armazenado; podiam, também,
acrescentar suas idéias ao material já escrito
anteriormente.
A contribuição de Derrida para "Os Imateriais" foi
sobre a maneira como a tecnologia da informação afetava a
escrita e a sua assimilação. Notou Derrida que a
geração da informação se tornava
indeterminada, pois a nova tecnologia apaga a voz do gerador.
A escrita digital em textos paralelos subverte a estabilidade da
posição do autor e a sua autoridade em
relação ao texto. A escrita múltipla, e a sua
apropriação, colocam uma nova condição para
o pensar, tanto para o autor como para o receptor, com
características de:
As escrituras digitalizadas, entrelaçadas e distribuídas
em rede, certamente, reposicionarão as condições
de apropriação da informação. Estudos e
pessoas começam a aparecer para pesquisar o assunto. A
escrita digital e seu contexto de existência permite uma
liberdade de lidar com o texto, que é livre das amarras da
composição e da interpretação linear. O
código lingüístico será sempre comum e
permanece como base das estruturas, como um elemento sistemático
e compulsório dentro de uma comunidade lingüística.
Mas os enunciados são contingentes, pois a sua
aceitação pelo receptor pode ou não acontecer.
É preciso então estabelecer uma
conceituação de estruturas de informação
fechadas e estruturas de informação abertas.
Estruturas de informação fechadas são artefatos
que estão explicitamente formatados e finalizados em seu
conteúdo por razões das características de seu
formato ou por uma necessidade de integridade de sua estrutura. Sua
substância não pode e nem deve ser alterada após
sua finalização. O objeto de informação
apresenta um acabamento que condiz com a qualidade e com as
características da informação ali contida.
É um formato próprio dos documentos lineares em que se
supões uma temporalidade continua que vai contemplando o sentido
como em um folhetim único e com uma escrita que não
é interrompida. O seu valor de uso e a sua relevância
são de cálculo preciso; a utilidade da
informação para o receptor pode ser mensurada por uma
decisão final.
São exemplos deste tipo de objetos os livros, artigos de
periódicos impressos, imagens acabadas e impressas, documentos
históricos, legais ou contratuais, patentes concedidas, etc.
Não é a forma que determina a completeza, mas uma
impossibilidade de nova modificação no conteúdo
por interação com o gerador ou o receptor .
Estruturas de informação abertas são objetos que
estão, ou em se fazendo ou que, apesar de pré-acabados
podem ter seu conteúdo modificado continuamente devido a um
sucessivo diálogo do gerador consigo mesmo ou pela
ingerência permitida e espontânea de um coletivo de
participantes. É próprio deste tipo de estrutura ser
acêntrica, e remeter ao conteúdo de outras estruturas
criando uma condição de atemporalidade,
desterritorialização e multiplicidade de enunciados que
formam uma bricolagem no formato da narração. Existe
nestes documentos uma tensão política como em uma
multidão que procura seus enunciados na busca do sentido.
Aqui só pode existir um valor circunstancial de uso do objeto,
pois a sua utilidade para o receptor está pendente a um
determinado momento do tempo quando a informação
está formada, mas , ainda, em se fazendo.
A sua medida de relevância e valor estão atreladas em uma
relação de expectativas circunstanciais de quem
espera contar com a coisa a partir da exposição de seu
viés do momento. Valor e relevância são cativas a
um determinado momento de completeza pela expectativa de seu de
fechamento dentro de perspectivas esperadas.
Para a informação aberta em fluxo não acontece uma
só transmissão de informação, existe um
contínuo colóquio interativo de enunciados entre
geradores e receptores. Os envolvidos possuem afinidade afetiva de seus
intentos e muita preocupação com a qualidade do objeto em
construção.
A jogo de informação nos colégios virtuais que
interatuam com estruturas abertas diferem dos colégios
invisíveis de outrora, quando os membros de um grupo
estão presentes na invisibilidade e em contato quase
físico que deixa rastro. Desviam-se, porém, dos canais de
comunicação formal. As comunidades virtuais não
são visíveis e existem pela não presença
com a visibilidade característica da
potencialidade.
No Quadro 1 tentamos
delinear as facetas da estrutura aberta e fechada:
QUADRO 1

A modificação que estes novos objetos de conteúdo
colocam nos atos de informação é uma
alteração estrutural e modificam o arcabouço da
coisa toda. Nos cenários de informação havia antes
um fluxo de eventos sucessivos em um tempo linear, mensurável e
direcionado a um único espaço de
informação. Com a informação em rede,
em tempo real, o acesso aos fluxos multidirecionados se aproximam do
tempo zero, sua velocidade se acerca do infinito e os espaços
são de vivência sem ter, necessariamente, uma
presença. Uma comparação intuitiva doas duas
estruturas é interessante para condições
didáticas e para reflexão. Relacionamos para algumas
características da estrutura da informação o texto
e o hipertexto e o conhecimento. Consideramos, só para
nossa explanação, duas condições
possíveis na geração (Ver Anexo em [15])
do conhecimento: 1) através de um pensamento convergente ou 2)
através de um pensamento divergente [7] e
atribuímos esta opção nas diferentes estruturas,
sem radicalizar. Quando intuímos que o texto alcança o
conhecimento via um pensamento convergente, não está
excluída a possibilidade de que ocorra um pensamento divergente
no processo. A intenção foi frisar o tipo focal de
pensamento que uma ou outra estrutura induz na formação
do conhecimento.
Entendemos por pensamento convergente, aquele em que, a
seleção dos enunciados na estrutura, se direciona a uma
cadeia de ligações cognitivas precisa. É o
pensamento determinado, convencional, pontual, que se abriga no
interior de uma composição. Pensamento divergente
é aquele em que a estrutura de informação induz um
caminhar cognitivo em diferentes direções, como que
pesquisando livremente os meandros dos documentos entrelaçados,
com múltiplas escolhas de novos caminhos antes de desenvolver
uma ligação com uma apropriação
final. Ver Quadro 2:
QUADRO 2
Estrutura da informação
e conhecimento
Fonte: pesquisa em
andamento
T = texto
H = hipertexto
Em uma reflexão selvagem [8] a estrutura de
informação dos documentos tradicionais se relaciona a
composição dos mitos como discurso, por ser uma narrativa
do pensamento semanticamente autônomo, mas com referência
ao seu próprio mundo, a sua interna esfera de verdade. Em seu
enunciado ritualista, marcado principalmente pelos seu caráter
de sagrada de realização repetitiva, o mito, assim
como, o documento linear se conta e se reconta sempre em um mesmo
sentido da narração; a ele não se acrescenta muito
ou o que se acrescenta é a interpretação de outro
individuo na recontagem, mas conserva uma representação
que procura ser fiel ao enunciado original. A apropriação
do enunciado linear mitológico é um processo de
cognição com uma intenção de tânatos;
transforma a apropriação dos enunciados pelo receptor em
uma pulsão de acabamento, um desfalecer da
informação acabada para renascer em um ritual de
conhecimento único.
Um hipertexto, considerado como uma estrutura de
informação aberta, é um enredo com
trajetória vagante e livre criando incertezas em seu caminho,
pois textos entrelaçados e direcionados ao infinito não
respondem, apontam sem uma definição estrita sem linhas
formais, cores ou formas previamente pensadas. Não tem nem mesmo
uma única realidade por norma ou forma. Pode ser um percurso de
passos delirantes sem destino certo e explicações
fáceis: é como um percorrer de enunciados em labirintos
de medusas entrelaçadas. Nesse sentido estas escrituras se
assemelham às lendas. Lenda porque aos textos que se
entrelaçam se agregam pedaços únicos formatados
pela narração de diferentes leitores, seguindo caminhos
alternativos e com diferentes intenções. O hipertexto
é lendário pois, qualquer seja o seu núcleo de
intenção, representará sempre a soma do que dele
se diz (ou se pensa) de acordo com seus diferentes percursos. A
escritura lenda pode aludir no seu andamento enunciados de proezas
notáveis ou maledicências perversas: em
condições subjetivas levará o receptor a reunir
tópicos de heróica exaltação ou ao
contrário críticas fabulosas de diálogos
maledicentes. Esta estrutura de informação percorre
a sua própria odisséia criada no real e passa a ser
independente do autor. Diferente do mito que só possui uma
representação simbólica no real, a lenda possui um
núcleo de verdade e uma bricolagem de atributos que lhe
são adicionados pela soma do que dela se diz.
Mitos, discursos, lendas e famílias de textos: todos habitam a
linguagem de criação na mente do escritor e refletem na
linguagem de composição a nova informação
"Assim se recicla o ser total da escrita: um texto é feito de
escritas múltiplas, saídas de várias culturas e
que entram umas com as outras em diálogo, em paródia e em
contestação; mas há um lugar em que esta
multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o
autor é o leitor: no leitor está o espaço exato em
que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as
citações de que uma escrita é feita; a unidade do
texto não está em sua origem, mas no seu destino, mas
este destino não pode ser pessoal: o leitor é um homem
sem história, sem biografia, sem psicologia" (Barthes, 1987) [9].
Se as famílias de texto intuem uma apropriação
diferenciada, mais abrangente e sem delimitação exigem,
também, uma competência extra para lidar com os seus
instrumentos de suporte. A esta aptidão chamamos de letramento
digital, ou fluência digital [10]. A
assimilação da informação digital exige, do
receptor, uma decodificação dupla ou em dois
estágios; em um primeiro estágio há que se acessar
e decodificar o conteúdo em meio digital e em uma segunda
etapa, válida para qualquer informação, a
apropriação cognitiva do conteúdo. Ser
digitalmente fluente envolve não apenas saber como usar as
ferramentas tecnológicas, mas também saber como construir
coisas significativas com estas ferramentas, pois seguir as pegadas em
um documento digital é como percorrer um labirinto [11]
de opções pessoais onde o trajeto para o conhecimento
é consentido a cada passo do andar. O caminhante não faz
o caminho o caminhar é permitido pelo conhecer. Cada
caminho tece um fio de Ariadne [12] individualizado
e pessoal ao caminhante.
O que define esta fluência digital e como este aparelhamento
viabiliza uma assimilação da
informação, de maior abrangência e melhor
qualidade, é o que estamos estudando no momento em
pesquisa em andamento. Para tentar valorizar o potencial de
aceitação da escritura em diferentes arcabouços
usamos como instrumental de pesquisa, uma narrativa de nove paginas
disposta como um texto impresso e a mesma narrativa montada em um site
como um hipertexto [13]. Solicitamos para uma
amostra de cinqüenta alunos de graduação,
pós-graduação e professores de ciência da
informação que indicassem dez unitermos simples e dez
compostos que traduzissem , em seu julgamento, o conteúdo do
texto e o conteúdo do hipertexto, isto é, o mesmo
conteúdo em diferentes estruturas de narrativa. Nessa fase
inicial da análise foi possível examinar que as palavras
associadas ao texto e ao hipertexto diferem nas mesmas
condições da característica de uma
apropriação através de um pensamento convergente e
de um apropriação por pensamento divergente. É
importante ressaltar que o exame esta sendo feito pelos conceitos
extraídos das duas estruturas por diferentes usuários. Em
nenhum momento perguntamos: qual das duas bases físicas seria
melhor para uma apropriação do conhecimento?
A tabela do Quadro 1 anterior reflete
algumas dessas observações, ainda preliminares.
Aos mesmos integrantes de nossa amostra foi pedido em
questionário um posicionamento para que fosse possível
perceber: 1) o que no seu julgamento significava a fluência
digital e 2) qual a importância da fluência digital para o
acesso e a assimilação da informação em
meio digital. Interpretamos, a partir deste material, que a
fluência digital não está relacionada, somente, com
o saber fazer algumas atividades de tecnologia da
informação. É um conjunto de
competências formadas por conhecimentos, atitudes e habilidades
técnicas.
Mostramos abaixo uma indicação do conteúdo destas
três condições que compõe a fluência
digital:
CONHECIMENTO - sobre:
ATITUDES - uma concordância com o proceder indicado por:
TER HABILIDADE TÉCNICA PARA:
Estes conhecimentos atitudes e habilidades, são indicativos e
não inclusivos. Indicamos como sendo os formadores do letramento
digital e se configuram, com a maior ou menor
participação de um dos elementos em três
níveis de fluência digital:
A fluência digital agregaria valor então passando do
nível um ao nível três. Ou seja, se o nível
um determina uma fluência digital técnica operativa, os
níveis dois e três seriam exercidos em um ambiente
empresarial operando com tecnologia de informação.
Poderíamos visualizá-los como em três
círculos entrelaçados e dinâmicos em seu
posicionamento como na figura 1 abaixo:
As indicações sobre a apropriação da
informação quando relacionadas a estrutura de um
documento fechado ou um documento aberto parecem indicar que os textos
digitais com elos de saída permitem uma
assimilação mais abrangente e mais individualizada.
Contudo, fica claro que, como o telefone é uma
extensão do braço o acesso e a apropriação
da informação digital é a extensão de uma
competência digital adequada.
"Todos os meios desde o alfabeto fonético ao
computador são extensões do homem causando, em seu
desenvolvimento, uma profunda transformação em seu agir e
no seu contexto de vivência. O homem pré-histórico
ou tribal existia em harmonia com seus sentidos percebia o mundo
igualmente, seja através da audição, do cheiro, do
toque, da visão e do paladar. Mas as inovações
tecnológicas são extensões das habilidades humanas
e nesse sentido alteraram todo este equilíbrio perceptivo. Uma
alteração que ao mesmo tempo reformatou a sociedade que
criou a tecnologia." [14]
Notas e Referências Bibliográficas
[1] A lucidez é um dom e um castigo. Está tudo em uma
palavra. Lúcido vem de Lúcifer, o arcanjo rebelde, o
Demônio. Lúcifer é também o luzeiro do
amanhecer, a primeira estrela, a que mais brilha e a última a se
apagar. Lúcido vem de Lúcifer, Lúcifer, de Lux e
Ferous que quer dizer: aquele que tem luz. Que gera luz. Que permite a
visão interior. Deus e Demônio tudo junto. O prazer e a
dor. Lucidez é dor, e o único prazer que podemos
conhecer, o único que se parece remotamente à alegria,
é o prazer de permancer consciente da própra lucidez. O
silêncio da compreensão, o silêncio do simples
estar. E nisto se vão os anos, nisto se foi a bela alegria
animal. Alejandra Pizarnik. [http://www.cibernetic.com/ALE/index.html
]
[2] Base: local da inserção das
inscrições de informação, que definem o
modo da estrutura a que pertencem; base física, como o papel,
qualquer base digital, sonora ou imagética.
[3] Paternostro, L.C.B., Referir: ref. 'referir', DataGramaZero -
Revista de Ciência da Informação , v.7, n.5.
[4] A utopia técnica de uma infraestrutura dos
backbones perfeitos para distribuição da
informação.
[5] Todo o relato destas experiências está baseado no
texto "Derrida e a escrita eletrônica", em Poster, M., The Mode of Information, The
University of Chicago Pres, 1990, 179 pp.
[6] O texto inteiro foi publicado pelo Centro Georges Pompidou,
França. Ver, ainda, Lyotard, J.F., Lês Immatériaux: Epreuves
d'écritures, Paris, Centre Georges Pompidou, 1985. Ver
anexo em [15].
[7] Guilford, J.P. "Three faces of intellect". American Psychologist, v.14, n.8,
1959. Ver detalhe em [15]
[8] Selvagem - o que nasce ou se desenvolve de forma indisciplinada
ou sem controle, sem regras . Que ainda não foi domado,amansado
ou domesticado.
[9] Barthes, R. "A morte do autor". O rumor da língua. Lisboa,
Edições 70, 1987.
[10] Fluência digital é a competência do receptor
em interatuar com os instrumentos de hardware e aplicativos de software
necessários para receber, decodificar e apropriar uma
informação em meio digital.
[11] Labirinto: já desde a Grécia antiga vemos o
labirinto e a imagem do labirinto como metáfora dos
inextricáveis caminhos do pensamento, que a audácia e a
sabedoria recompensariam com a saída em uma rede complexa de
caminhos. O labirinto é essencialmente o entrecruzamento de
caminhos complexos. É o paradigma espacial da encruzilhada, dos
cruzamentos. Evoca geralmente um sistema denso e fortemente encadeado,
aparentemente desordenado; mas o fio de Adriadne representa a ordem
necessária ao enigma do espaço, da estrutura.
[12] Fio de Ariadne: Teseu, ao saber que sua cidade deveria pagar a
Creta um tributo anual composto de sete rapazes e sete moças
para serem entregues ao insaciável Minotauro que se alimentava
de carne humana, solicitou ser incluído entre eles. O Minotauro
vivia em um labirinto, constituído de salas e passagens
intrincadas do palácio de Knossos, cuja construção
é atribuída ao arquiteto ateniense Dédalo. Ao
chegar em Creta, Teseu conheceu Ariadne, a filha do rei Minos, que se
apaixonou por ele. Ariadne, resolvida a salvar Teseu, pediu a
Dédalo a planta do palácio. Ela acreditava que Teseu
poderia matar o Minotauro, mas não saberia sair do labirinto.
Ariadne deu um novelo a Teseu recomendando que o desenrolasse à
medida que entrasse no labirinto, onde o Minotauro vivia encerrado,
para encontrar a saída. Teseu usou essa estratégia, matou
o Minotauro e, com a ajuda do fio de Ariadne, encontrou o caminho de
volta. Retornando a Atenas levou consigo a princesa. Depois de uma
noite de amor, Teseu deixou-a na ilha de Naxos, e ela nunca mais viu
Teseu.
[13] Ver hipertexto
em < http://www.citi.pt/homepages/espaco/index.html
> . O texto correspondente ao hipertexto foi montado a partir
dos enunciados deste site.
[14] Marshall McLuhan. The Playboy Interview: Marshall McLuhan, Playboy Magazine (March 1969, 1994
by Playboy Magazine).
A geração do conhecimento, o pensamento convergente e
o pensamento divergente estão conceituados segundo o conceito do
cubo do intelecto de Guilford indicado em [7] e
mostrado abaixo :

A formação do conhecimento teria insumos dos a)
conteúdos de informação, sofreria a
ação das b) operações mentais e geraria c)
produtos do conhecimento. Na visão de Guilford cada quadrado da
faceta do cubo operara estas três funções que
detalhamos a seguir:
Facetas da produção do
conhecimento
1- CONTEÚDOS DE INFORMAÇÃO:
a) Figural - acesso através dos sentidos; tem forma, tamanho,
cor, dimensão
b) Simbólico - signos convencionalmente aceitos: letras,
sílabas, palavras, sentenças, linguagem
c) Semântico - conteúdo relacionado a um símbolo ou
a um conjunto de símbolos significantes
d) Contextual - conteúdo percebido ou adicionado pela
interação com outros sujeitos ou uma ambiência
específica
2 - FUNÇÕES MENTAIS:
a) Julgamento de valor - posição inicial e individual de
interesse e avaliação
b) Absorção convergente - pontual, direcionada, pode
levar a sedimentar um conhecimento existente
c) Absorção divergente - fluência de idéias,
pode levar a uma modificação ou rejeição ou
certificação do conhecimento existente
d) Memória - estoque mental de conhecimentos adquiridos
e) Cognição - aceitação,
assimilação do conhecimento a partir da
informação utilizada e avaliada
3 - PRODUTOS DO CONHECIMENTO:
a) Conceitos - representação de um objeto* pelo
pensamento. Unidade mental de menor complexidade, mas que mantém
propriedades causais e de representação
b) Classes - grupos de conceitos com propriedades e ou
significações semelhantes
c) Relações - produto resultante de uma reunião de
conceitos
d) Sistemas - conceitos interligados formando estruturas lógicas
com relações complexas
e) Transformações - modificações que podem
ocorrer com o conceito no espaço
f) Implicações - modificações que
podem ocorrer com o conceito no tempo
* - Objeto: tudo que é apreendido pelo conhecimento, sem ser o
sujeito do conhecimento. Tudo aquilo que pode ser pensado e
representado, distintamente do ato de pensar.
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Vannevar Bush e Paul Otlet. Ver em: <http://www.tfh-berlin.de/~weberwu/ds/TedNelson.html>
<http://www.callnetuk.com/home/billkennelly/who.htm>
<http://www.scope.at/program/speakers/nelson.html>
Sobre o autor / About the Author:
Aldo de Albuquerque Barreto
aldobar@globo.com
Pesquisador Titular do MCT-IBICT