SÉCULO XXII

 

O confortável coletivo movido com a energia armazenada em suas super baterias, corria silencioso pela grande via ao longo da enseada de Botafogo, vindo do Flamengo, na direção do Mourisco. Outros veículos semelhantes àquele, diferindo um pouco em formatos, cores e tamanho, transitavam também silenciosos pela avenida.

O tráfego era mais ou menos distribuído ao longo do dia, não havendo grandes concentrações em determinadas horas como antes. Muito contribuía para isto os diferentes turnos de serviço, devido às no máximo vinte horas de trabalho semanais, além de ser bastante comum o trabalho realizado por tele transdutores interativos, em casa. Mais contribuíam para o trânsito nas ruas, os deslocamentos dos estudantes, em horário escolar. É que a formação social das crianças exigia a convivência em grupo.

Os carros individuais, embora existissem, não eram muito utilizados, por ser mais cômoda a viagem nos coletivos. Também não eram nesta época, indicativos de classe social de seus possuidores.

Aliás, classificação das pessoas tinha muito mais sentido quanto a tipo preferencial de modo de viver, ou a grupo funcional, que a renda média mensal ou ao acesso a recursos básicos.

Recursos de saúde, educação e segurança eram direitos humanos essenciais devidos e efetivamente assegurados pela sociedade a absolutamente todos os habitantes.

A renda mensal individual era realmente diferenciada por profissão, por acesso a postos mais importantes ou funções que importassem em maiores conhecimentos ou maiores habilidades. A gama de variação, entretanto, não era muito grande, podendo chegar no máximo a uma relação de três para um, entre o maior e o menor salário.

Irapuan Martins Trineto e sua esposa, calmamente sentados na condução, estavam distraídos contemplando as maravilhosas paisagens do Rio de Janeiro. Nas mãos deles, alguns anéis continham o celular, o controle remoto e o cartão auxiliar do leitor de iris.

O celular individual (acessado por meio de identificador próprio de cada pessoa física) da mulher soou. Era uma amiga, logo identificada pelo toque, querendo saber se ela já estava para chegar em casa, pois queria mandar-lhe uma mensagem com uma imagem artística tridimensional animada, "on line".

Ela e esta sua amiga pertenciam a uma equipe de artistas plásticos que, não faz muito tempo, havia trabalhado na realização do grande espetáculo de lumino-cromo-arte que cobrira todo o céu da cidade por ocasião da passagem do século.

Realmente eles estavam para chegar a sua residência, após uma pequena ausência, em visita a um parente já muito idoso, ao qual desejaram levar sua presença real, tocando-o ao vivo.

O casal levantou-se após Irapuan ter passado duas vezes, seu anel cartão de transferência de fundos no dispositivo leitor existente em frente aos seus bancos. Com este ato ele não só pagava as passagens de ambos, como também sinalizava ao operador do coletivo de que os dois iriam desembarcar pouco adiante.

O operador, junto a sua mesa de comandos tinha ampla visão real para todo o espaço a frente do veículo, para possibilitar sua perfeita supervisão da direção, podendo intervir na mesma a qualquer instante, se assim fosse necessário. Numa tela também visível sem ter de movimentar a cabeça, recebia permanente informação visual sobre o estado atual instantâneo de todo o itinerário a percorrer. Em caso de qualquer anormalidade nas vias de transporte, imediatamente era montado, numa central de controle automático, um esquema alternativo de trânsito, o qual era visualizado na tela, "on line".

Tendo recebido a informação de que dois passageiros iriam saltar do veículo, ele verificou que estava sendo acionado o comando de parada para desembarque.

O casal deixou o veículo, proferindo um "muito obrigado" ao operador e dirigiu-se a pé para sua residência, bem próxima ao local em que se encontravam. O veículo partiu, seguindo seu trajeto normal.

Chegando a alguns metros da moradia, Irapuan apontou o controle remoto para a porta, com o que destrancou e abriu a mesma. Primeiro a dama, depois o rapaz entrou em casa.

Ainda era dia claro, mas se fosse noite as luzes já estariam se acendendo, acionadas pelo sensor de presença. De outra forma, o morador podia acendê-las apontando-lhes seu controle remoto, com o qual ele podia ligar ou desligar qualquer aparelho dentro da casa.

É claro que todas essas ações somente podiam ser efetivadas pelos próprios moradores, pois o controle de qualquer outra pessoa estranha teria codificação diferente, que não permitiria o acionamento, ao mesmo tempo em que seria registrada convenientemente a tentativa frustrada.

De sua varanda panorâmica, Irapuan podia contemplar, de forma real, a bela vista do Corcovado, e sempre dedicar um pensamento de amor e reverência ao Secular monumento do Cristo Redentor.

Por meio da janela virtual, no entanto, a família podia também contemplar qualquer outra paisagem importante do Rio de Janeiro, "on line", podendo ver o que lá se passava naquele exato momento, bem como deliciar-se com sua beleza, opcionalmente ouvindo também os sons locais distantes. O Executivo Municipal controlava permanentemente a distribuição das vistas panorâmicas para toda a Cidade, operada por concessionária habilitada. Essas concessionárias podiam opcionalmente fornecer o serviço em âmbito interurbano ou internacional, em acordo e parceria com o Turismo.

Assim sendo, "apartamento com vista para o mar" já era uma expressão ultrapassada, de um passado remoto, hoje quase um pleonasmo.

Conscientes de seu dever cívico, o casal ligou o transdutor interativo de tele mídia, pois sabia que algumas decisões importantes deveriam ser tomadas a curto prazo.

Este aparelho, agora o eletrodoméstico mais indispensável de todos, é a um tempo, um computador ligado às grandes redes, um receptor de televisão, um telefone doméstico, um receptor e transmissor de imagens e sons, comutável ( o telefone individual, de cada pessoa, é o celular, intimamente associado a sua identidade e que sempre a acompanha onde quer que ela esteja ). Ele recebe sinais de entrada por meio de diversos sensores. Pode identificar as pessoas, lendo a íris de seus olhos e pode receber mensagens em viva voz, inclusive identificando as vozes recebidas.

Com o dedo na grande tela, Irapuan pediu ao relator de projetos o que de mais urgente estava para ser votado. Os projetos eram preparados pelo Executivo Oficial ou pelo Legislativo Oficial, conforme o caso.

O casal ouviu então atentamente, um relato de algumas obras importantes a serem realizadas e algumas novas leis a serem propostas, sendo toda a exposição acompanhada por imagens esclarecedoras do assunto.

A viva voz mesmo, Irapuan pediu a defesa de um dos projetos relatados. O relator oficial de defesa apresentou todas as razões que justificavam a providência pública proposta . Em seguida foi a esposa que pediu: "argumentos contrários". O relator oficial de acusação passou a mostrar as mais graves conseqüências prováveis do projeto.

Agora cada um deles podia assumir uma das três ações permitidas, a saber:

1 – adicionar um ou mais novos argumentos a favor;

2 – adicionar um ou mais novos argumentos contrários:

3 – votar sim ou não para a execução do projeto.

Os novos argumentos fornecidos eram analisados e computados pelos relatores oficiais de defesa e de acusação (os relatores eram elementos importantes no sistema, sendo eleitos periodicamente por toda a população), a quem competia também solicitar exames e perícias que fossem necessárias.

O voto era computado imediatamente, identificando-se o votante por meio da leitura da íris de seus olhos, por parte do transdutor interativo.

Atingida a maioria absoluta exigida, ou transcorrido o prazo máximo admitido previamente, o projeto era aprovado e entregue para execução ao Executivo Oficial. No caso de leis, iam para o Legislativo Oficial.

Era desta forma atingida uma democracia quase perfeita, e o governo era exercido de uma forma coletiva e abrangente em toda a Nação e em todos os segmentos da sociedade, com transparência cristalina.

De um modo geral, a estrutura administrativa das empresas contemporâneas também se baseava nesses conceitos, adotando uma forma semelhante, em que tanto a Operação quanto o Planejamento e mesmo a Direção eram descentralizadas e mesmo disseminadas em todo o quadro de pessoal.

Talvez conseqüência direta dessa maneira de se organizar a sociedade, o número de horas de trabalho semanais vinha se reduzindo substancialmente, com ganho efetivo na qualidade de vida.

Isto porquê o modo de se encarar o problema da evolução tecnológica e a conseqüente dispensa de mão de obra era bem diferente do que fora no século passado. Sob uma nova ótica, de uma gerência empresarial disseminada pela maioria das pessoas envolvidas, os fatos tornam-se diferentes:

As novas máquinas, os novos equipamentos, as novas técnicas, etc., são criados em benefício da humanidade, portanto da maioria das pessoas. Assim sendo, não devem trazer o desemprego e sim a redução e a elevação de classe do trabalho humano. Numa consideração simplista dir-se-ia que se a máquina reduz a necessidade atual de empregados à metade, em lugar de demitir a outra metade, é melhor reduzir o número de horas de trabalho à metade e trabalhar em dois turnos, com todos os empregados, sem redução de salários. Além disso é possível reciclar os empregados para uma melhor forma de trabalho.

Agora Irapuan recordava as diversas etapas que foram transcorridas na implementação de um completo sistema de segurança pública da Cidade, em que todas as modernas técnicas empresariais foram utilizadas.

A segurança, tratada de uma forma preventiva, em conjunto com a educação dirigida e diversificada muito dependeu de informações precisas e estatísticas orientando providências corretamente aplicadas no tempo e no espaço físico localizado.

Durante as diversas fases desse programa foi essencial a utilização da potente rede de informações montada na BrasilNet, sobre uma rede mundial de computadores. Mais ainda foi o civismo/patriotismo daqueles que, como ele, deram sua contribuição individual, ouvindo, julgando e votando nas diversas providências que culminaram com o completo esvaziamento e a extinção do crime organizado, em todo o País.

Droga hoje, só nas drogarias e específicas para cura de doenças que tenham ocasionalmente escapado ao controle da medicina preventiva e aos avanços da engenharia genética. Armas de fogo são aparelhos muito raros, que muita gente nunca viu, nem mesmo nas mãos da Polícia.

Do mesmo modo que a montagem dos diversos projetos de interesse nacional era totalmente descentralizada, envolvendo todas as regiões, todas as coletividades e todos os interesses do País, sobre o arcabouço da imensa rede de computadores, também assim o eram a votação e a aprovação dos mesmos.

A execução, a cargo do Executivo Oficial, também era da mesma forma totalmente descentralizada e montada sobre a rede de informações e de execução. Poder-se-ia dizer que não havia mais sede do Governo. O governo estava disseminado por todo o território do Brasil, incluindo as regiões dos grandes mananciais, a Amazônia e o Pantanal.

Considerado um exemplo positivo por todos os povos, o BRASIL, florão da América, fulgurava iluminado ao Sol do novo Mundo e ninguém na Terra, em sã consciência, poderia questionar a eficiente autoridade brasileira sobre os recursos essenciais da Amazônia , do Pantanal ou de qualquer outro manancial em seu território.

Ao contemplar o Cristo Redentor, Irapuan mentalizou o Jesus Nazareno e dedicou-lhe um pensamento de Graças pelos resultados alcançados em sua querida Cidade.

 

 

TÚNEL DE VOLTA NO TEMPO