ANO DA FUNDAÇÃO

Havia 4 milhões de brasileiros no Brasil
O território do Rio pertencia à capitania de S. Vicente
Havia 3 mil índios na região

 

Tendo deixado para trás a algumas léguas, sua taba Tamoio, o valente índio seguia pela mata densa, a frente de sua mulher e de seus filhos. Eles demandavam a beira do mar bravio, junto às montanhas do Pão de Açúcar e do morro Cara de Cão (claro que ainda não tinham recebido esses nomes).

O guerreiro conhecia muito bem esses lugares, de onde costumava contemplar, desde a sua infância, as paisagens maravilhosas que se descortinavam. Por aqueles mares de fora passavam todos os grandes navios dos homens brancos que de longe vinham para as ilhas que se defrontavam com as praias de terra firme. Nessas ilhas eles construíram suas fortalezas.

Nas praias eles vinham a procura de alimentos e tudo mais de que precisavam. Com o povo indígena, os brancos costumavam negociar trocas de roupas e ferramentas de ferro, por madeira, água e alimentos nativos, como a mandioca.

Por vezes vinham navios de outros brancos, que atacavam as fortificações da ilha, com seus canhões. Com a resposta ao fogo, por parte dos defensores das ilhas, um tremendo canhoneio era ouvido por toda aquela região. Tudo terminava com o recuo dos atacantes, incêndios na ilha e nos navios e tudo voltava a ser como antes.

 

 

Os homens das ilhas já se instalavam nas praias que contornavam a grande enseada.

Depois chegaram novamente os atacantes, mas desta vez, em lugar de atacar a pequena ilha, desembarcaram lá entre as montanhas da entrada, no local de lazer de nosso guerreiro.

Como se afastavam da taba, ele ia à frente de forma a ser o primeiro a defrontar-se com qualquer sorte de perigo que viesse a aparecer, mantendo a segurança de sua família. Na volta seria o contrário, a família ficaria à frente, mais próximo à taba, pois poderia lá chegar mais facilmente, correndo, no caso de qualquer ataque imprevisto, enquanto o guerreiro enfrentava o atacante, em defesa da mulher e das crianças.

Há tempos os perigos rondavam toda a região, desde que os estrangeiros brancos construíram fortificações na pequena ilha, onde colocaram canhões e muitas outras armas perigosas. De tempos em tempos, outros navios de estrangeiros brancos diferentes chegavam e sangrentas batalhas se travavam com aqueles da pequena ilha. Terminados os combates, os homens da ilha vinham às praias fronteiriças, em busca de recursos e víveres, junto aos indígenas, pois lá na ilha quase nada havia.

Depois os brancos da pequena ilha já se estabeleceram também na grande ilha (paranapuan), bem próximo às praias da terra dos Tamoios. Eles se aliaram a muitos índios tamoios, mas não a todos.

Guerreiro tamoio brioso, Irapuan era o seu nome. Como muitos guerreiros de seu grupo, ele não tomou partido nessas lutas de estrangeiros, mantendo-se neutro e só desejava mesmo era a paz e a segurança de seu povo. Jamais se submeteu ao trabalho escravo, como aliás acontecia com a totalidade do povo indígena, mesmo com aqueles que combatiam aliados aos estrangeiros.

Estes tentavam colocar os indígenas em trabalho escravo para cultivo da terra, mas nada haviam conseguido, porque os Tamoios a eles não se submetiam. Irapuan era valente guerreiro, mas defensor da paz. Suas flechas basicamente se destinavam à caça, não eram envenenadas.

Em reunião de conselho de guerreiros no centro de sua taba com o tuchaua, para discussão (nheengaba) desses novos problemas, Irapuan já se pronunciara veementemente em favor da neutralidade de seu povo no conflito presente.

Os outros brancos diferentes que chegaram ultimamente, em lugar de atacar as ilhas fortificadas, desembarcaram lá, entre o Pão de Açúcar e o Cara de Cão e ali estabeleceram sua base de operação. Uma aldeia com casas de pau a pique, fortificadas. Ali se iniciava a formação de uma cidade maravilhosamente colocada entre belas montanhas e um mar lindo. Foi no dia de São Sebastião (20 de Janeiro).

Esses brancos da nova cidade eram ultimamente atacados pelos que vinham das ilhas e agora já ocupavam toda a grande praia da enseada. Como também aqui já haviam recrutado vários guerreiros indígenas, nas lutas já se viam índios de ambos os lados, lançando flechas contra seus próprios conterrâneos. Tornara-se uma infeliz luta fratricida.

Nessa hora era mesmo o caso de perigo iminente, pois eles ouviram estrondos assustadores e muita gritaria. Travava-se uma batalha sangrenta nas imediações, muito maior que as anteriores. Tiros e lutas corpo a corpo com espadas e todo tipo de armas estavam ocorrendo ali bem perto. Os homens da nova povoação entre os morros estavam invadindo e atacando os das ilhas, estes já nas praias de terra firme.

Já há bastante tempo Irapuan estava acostumado a ver homens brancos, entre os quais muitos soldados, por toda a região. Falavam língua estranha e comerciavam com auxílio de seus companheiros Tamoios. Ultimamente a situação já se tornava muito mais complicada e cheia de perigos, pois novos homens brancos, de língua diferente, vinham atacar os que lá estavam e também se aliavam aos nativos. Seu povo indígena estava dividido e havia também selvagens de outras terras distantes, trazidos pelos atacantes.

Agora era uma grande batalha que se travava, depois da chegada de vários navios. Uma grande frota de quase uma dúzia de grandes navios havia aportado na nova cidade, trazendo um exército bem poderoso. Um ataque em massa se iniciava por terra, para tomar não só as praias, como também o antigo forte da ilha.

A luta se estendeu desde aquela região, onde desembarcavam, continuando ao longo das praias até as proximidades das ilhas da grande enseada. Lutavam brancos e índios dos dois lados. As armas eram as mais diversas, desde os poderosos canhões até as flechas indígenas, algumas envenenadas.

Irapuan, que não estava envolvido nesses acontecimentos e só pensava mesmo era na segurança de seus entes queridos, procurou afastar-se rapidamente daqueles locais.

Ao longe podiam-se ouvir gritos e imprecações de ambos os lados do combate, em línguas diferentes. Não raro era, em desespero, alguém recorrer aos poderes divinos:

  • Mon Dieu!
  • Meu Deus!

Avistando as montanhas mais altas, do lado oposto ao mar, uma das quais apresentava a forma de um grande altar, entre as nuvens sob o céu azul, Irapuan mentalizou uma imagem que se formava em sua alma:

  • Rudá!

 

Contrito, ele dirigiu um pedido sincero de proteção para sua família, de todas aquelas violências que ocorriam a sua volta.

A salvo, eles conseguiram chegar a sua taba, não sem ter de vencer algumas dificuldades ao longo de um caminho alternativo, por dentro das matas.

Mais tarde ele pôde notar que as ilhas haviam sido tomadas pelos atacantes, e lá não mais estavam os primeiros navios pertencentes aos antigos ocupantes da fortaleza.

Irapuan percebeu, entretanto, que no final dos combates, o grande chefe branco que comandava os atacantes, estava moribundo, por ter sido atingido em seu rosto por uma flecha envenenada.

O índio não sabia, mas aquele era Estácio de Sá, que ali havia fundado a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e posteriormente veio a morrer, em conseqüência do ferimento recebido no combate.

 

 

 

 

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