DÉCADAS 30 e 40

Havia 45 milhões de brasileiros no Brasil
O Rio era capital da República, no Distrito Federal
Havia 2 milhões de cariocas

 

Esquina da Rua Larga com a Camerino, havia um burburinho no meio do dia. Era um constante movimento de bondes que iam para ou vinham da Praça Tiradentes ou Largo de São Francisco, ou daqueles que seguiam para o Largo de Santa Rita. Isto importava em freqüentes e ruidosas manobras da chave dos trilhos, acionada eletricamente por um operador da Light, empoleirado numa cabina no alto de um poste. Além disso, era o período em que ali estavam os alunos do turno da manhã, que saiam bem como os do turno da tarde, que entravam. Alunos do Colégio Pedro Segundo, o famoso colégio padrão do ensino e considerado o de alunos mais bagunceiros do Rio de Janeiro.

Era padrão porque em seu quadro docente figuravam os mais ilustres professores da época, autores dos livros adotados no ensino secundário, como, por exemplo: Antenor Nascentes, Waldemiro Potsch, Cecil Tiré, José Oiticica, Melo e Souza, Manuel Bandeira, e muitos outros famosos.

Um dos professores, de nome Brigole, contou com detalhes, a volta à Torre Eifel, dada por Santos Dumont em um balão dirigível.

Contou com os detalhes de quem assistia à cena naquela ocasião, pois lá estava, em Paris, e juntou-se ao povo curioso que lotava a praça pública naquele momento. Contou ele que uma pessoa a seu lado (francesa, provavelmente) perguntou-lhe que bandeira era aquela. É que Santos Dumont havia colocado uma bandeira brasileira na popa do seu balão, o qual tinha o feitio de um charuto, com leme, motor e hélice, dando-lhe completa autonomia de movimentos horizontais. O brasileiro pôde então, com orgulho cívico, responder em voz bem alta, para que muitos ouvissem a seu redor, que aquela era a bandeira de seu país natal, o Brasil.

Mas voltemos ao Rio de Janeiro, no local citado. Ali era o externato do Colégio Pedro II, porquê o internato ficava bem distante, no Campo de São Cristóvão.

A famosa bagunça incluía até a colocação de um esqueleto completo sentado numa das janelas, com as pernas para fora (para a rua Camerino), atraindo a atenção e a curiosidade dos passantes. Pior ainda era o transtorno que essa garotada, nessa hora, causava aos pobres servidores da Light, motorneiros, condutores e fiscais, que eram responsáveis pelo funcionamento dos bondes que, diga-se de passagem, era eficiente. Os mais perturbadores até desatrelavam o reboque do carro principal do bonde. Quando o condutor dava aquele sinal de "pode partir" (dois toques da sineta: plim-plim), e o motorneiro levava sua manopla para o primeiro ponto de contato do motor, fazendo o bonde se movimentar, só então eles viam que o reboque ficara parado, motivando estrepitoso protesto dos passageiros que lá estavam (a maioria ali, nessa hora, também era constituída por alunos do Colégio).

Os bondes que vinham do lado da Central do Brasil, pela rua Larga (Marechal Floriano) e demandavam a praça Tiradentes, ou o Largo de São Francisco, dobravam e seguiam pela avenida Passos, cortando a rua de São Pedro, a General Câmara, a da Alfândega, Senhor dos Passos, Buenos Aires, etc. Outros seguiam em frente na direção do Arsenal de Marinha e Avenida Central (Rio Branco), pelo largo de Santa Rita.

Falamos nos pobres condutores e aqui cabe reverenciar seus méritos numa merecida homenagem a sua ação acrobática de cobrar o valor das passagens de todos os passageiros, além de registra-las acionando um grande relógio que havia no teto do bonde, e ainda controlar o embarque e o desembarque, dando o sinal de partida para o motorneiro, no momento oportuno. O bonde fazia paradas intervaladas de cerca de duzentos metros, para embarque e desembarque de passageiros. Esses pontos eram assinalados por uma larga faixa branca nos postes da rua, que eram pretos. O condutor ficava sempre no estribo do veículo, segurando no balaustre, com a mão cheia de moedas e notinhas para troco, tendo de se movimentar ultrapassando passageiros, que também viajavam no estribo. É que, quando não havia mais lugar para sentar nos bancos de cinco passageiros, os homens ficavam em pé no estribo, enquanto que mulheres e crianças ficavam em pé entre os bancos, junto aos joelhos dos que estavam sentados.

 

Outra particularidade distintiva do sexo no que se refere ao transporte por bonde era o saltar e o embarcar com o bonde em movimento. Somente os homens pegavam o bonde andando (ou saltavam), alguns com grande habilidade, como os jornaleiros e os baleiros, que queriam apenas vender sua mercadoria, ou mesmo os passageiros que queriam mostrar sua perícia no embarque ou desembarque em maiores velocidades.

Numa época em que houve diversos movimentos revolucionários, apareceu uma piada do seguinte teor:

    • Sabe que rolou bala na Praça da República?
    • É mesmo?!!!
    • É, o baleiro caiu do bonde.

Mas havia as horas de menor movimento, em que o bonde era até uma condução agradável. Fresca e tranqüila, proporcionando até uma leitura interessante dos anúncios comerciais nele estampados. Alguns ficaram célebres no conhecimento popular, como por exemplo estes:

 

Veja ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro,
Que o senhor tem ao seu lado,
E no entanto acredite,
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o Rum Creosotado.

 

Pros artistas do pincel,
Acabou-se a carestia
Porquê na casa do Abel
de Barros e Companhia,
Tem tintas, óleos, vernizes,
Pra dar de graça ao freguês.
É na rua Buenos Aires, 233

 

Em horas de pouco movimento e poucas paradas, o bonde até corria em alta velocidade, aos nove pontos (última posição da manopla de comando do motor, acionada pelo motorneiro). O ruído do motor então se assemelhava a um cantar da máquina. Nas paradas podia-se ouvir o compressor carregando o reservatório de ar comprimido dos freios.

Era comum a garotada do Colégio, ao arrepio do motorneiro, que só não o impedia por estar em absoluta minoria, trocar o letreiro do bonde, acionando a manivela existente ali. Colocavam sempre o letreiro de "PRAIA VERMELHA". Porquê Praia Vermelha? Porquê isto queria dizer que o bonde estava cheio de loucos, já que naquele lugar se localizava o Hospício mais conhecido da Cidade.

Irapuan, ao sair do Colégio um dia, resolveu ir até lá para conhecer o lugar, por curiosidade. Tomou o verdadeiro bonde Praia Vermelha.

Sempre morador nos subúrbios da Central, não conhecia a Zona Sul da Cidade Maravilhosa. Só então ele pôde apreciar várias paisagens verdadeiramente maravilhosas. O bonde correu pela praia do Flamengo de onde ele bem via a baía de Guanabara. Da praia de Botafogo ele pôde apreciar o Pão de Açúcar, na entrada da Barra. Do outro lado, sobre a cadeia de montanhas, avistava-se o recém inaugurado Cristo Redentor, no Corcovado.

O bonde seguiu, num repetido anda e para, até o fim da praia de Botafogo, no chamado Mourisco, onde um castelo que muito se assemelhava àqueles das histórias de Mil e Uma Noites, justificava o nome do lugar.

Ali a cadeia de morros se fechava, formando um paredão. No alto do mesmo, um grande anúncio luminoso despejava água mineral de uma garrafa em uma taça, da qual saiam as bolinhas da efervescência. Tudo por meio de lâmpadas que se acendiam e apagavam repetidamente.

O bonde desviou-se então e entrou em uma rua cujo nome bem de acordo com sua função, era Rua da Passagem. Seguindo essa rua, ganhou depois a rua General Severiano, por onde seguiu até o Iate Clube do Rio de Janeiro, já novamente nas proximidades do mar. Ali ele já estava na bela avenida Pasteur.

Lá estava, do outro lado, o famoso Hospício. Havia grades nas janelas, provavelmente para impedir a fuga por parte dos internos.

A beleza dos grandes prédios da avenida chamou mais a atenção do garoto que o hospital que lhe trazia à mente amargos pensamentos. Havia também bonitas residências. Uma delas, sabia, era moradia do Diretor de seu colégio, Professor Raja Gabaglia.

No fim da avenida, uma praça famosa, onde se localizava a estação de partida do bondinho do Pão de Açúcar. Da estação o cabo do bondinho levava-o até o Morro da Urca. De lá para o Pão de Açúcar havia outro lance de caminho aéreo. Além da praça, a Praia Vermelha já atingia o mar fora da Baía de Guanabara. Essa praça (General Tibúrcio) até pouco tempo era um quartel do Exército, onde foram assassinados vários militares, por extremistas terroristas.

O morro à direita já era o limite que separava essa região do Leme.

Para chegar ao Leme, ou a Copacabana, era necessário ter tomado outro caminho, demandando um túnel. Irapuan voltou para a cidade, pois não desejava assustar sua mãe, com sua ausência muito demorada.

Os ônibus eram conduções um pouco mais caras porem mais confortáveis. Só levavam passageiros sentados . Não podia ir ninguém em pé. Os bancos também eram mais confortáveis, como o eram também os de todos os automóveis. Ou eram de couro animal de verdade, ou de pano, porque nessa época ainda não existiam os tecidos sintéticos ou os plásticos.

Os trens da Central eram mais populares. Novos ainda, pois a eletrificação da estrada de ferro ainda era recente, ofereciam uma segurança muito acima do que havia antes, quando eram freqüentes os desastres nas linhas urbanas. Os trens de longo percurso mantinham-se com locomotivas a vapor, mas de boa qualidade. Um trem rápido noturno diário entre o Rio e S. Paulo era conhecido como o Trem Azul, mas seu nome real era Cruzeiro do Sul.

Irapuan Martins era um bom aluno recém ingressado no Colégio Pedro Segundo e ainda estava orgulhoso disto, haja vista que ao exame de admissão concorriam milhares de candidatos, para talvez cem vagas. Havia uma prova escrita e um aterrador exame oral, em que o pobre menino candidato tinha de enfrentar uma banca de professores famosos, num anfiteatro com assistência pública. Tremendo como varas verdes, alguns conseguiam manter algum controle sobre si mesmos, e eram aprovados. Outros se atrapalhavam e eram reprovados, sob crise de choro geralmente. Um destes chegou a incluir entre os planetas do sistema solar, o planeta Mongo (aquele em que foi parar o Flash Gordon, nas revistinhas de aventuras).

A maioria dos alunos pagava mensalidade ao Colégio, mas alguns eram gratuitos, declarados de família pobre. Irapuan estava neste caso.

Seu pai ganhava apenas o suficiente para morar em uma casa de vila no subúrbio e alimentar modestamente a pequena família, com a ajuda do trabalho da esposa em casa, costurando ou fornecendo pensão para fora. Os filhos, dos quais ele era o mais velho, não tiveram muitos brinquedos. Em geral somente no Natal podiam contar com um pequeno brinquedo de lata ou de madeira, uma bola de borracha ou uma bonequinha de pano ou de celulóide, para a menina. Os brinquedos de plástico ainda não existiam.

Provavelmente, o garoto cedo teria de arranjar alguma forma de atividade extra, à tarde, que não perturbasse o estudo, mas que rendesse pelo menos o valor necessário para a compra dos livros didáticos.

Logo, logo ele teve a necessidade de consulta a alguns livros que não podia comprar e uma forma de resolver o problema foi recorrer a biblioteca pública. Havia a grande Biblioteca Nacional, instalada em um prédio monumental na avenida Central, na Cinelândia, onde existiam todos os livros de que pudesse necessitar. E ele muito a explorou nesse sentido. Aproveitando a proximidade da Escola Nacional de Belas Artes, ele ali costumava contemplar as mais famosas obras de grandes artistas internacionais.

Com menor disponibilidade de livros, entretanto, havia outra bem mais próxima do Colégio: a Biblioteca Municipal.

Para ir até lá, ele saiu caminhando pela avenida Passos, atravessou a rua de São Pedro, chegando à rua General Câmara e por ela seguiu até a Biblioteca, já próximo à Praça da República.

Desta vez ele lá não encontrou o que procurava e então resolveu voltar para sua casa.

Estava bem próximo ao Campo de Santana e decidiu ali ficar um pouco descansando num dos bancos de pedra, para espairecer.

Longe do burburinho, num ambiente tranqüilo, arejado, agradável, ficou a meditar. As cotias e os frangos d’água que por ali andavam e fugiram com sua aproximação, já se aventuravam a voltar, mais confiantes.

A sua frente, não distante, Irapuan viu o prédio histórico do Quartel General, junto ao qual já se percebia o início da construção de um novo prédio muito maior.

A visão do Quartel da época do Império, trouxe ao estudante a lembrança do quadro da proclamação da República, ocorrida há quase meio século. Então ele estava no lugar onde ficaram as tropas dos republicanos, que pouco mais de um ano antes, haviam conseguido a extinção da escravidão, então rebelados contra o Império, com Deodoro à frente, montado num belo cavalo de general. Ele pôde imaginar com nitidez, a figura do Marechal ali chegando e sendo recebido com entusiasmo pelos republicanos e aderindo ao movimento. Estava sendo proclamada a República, bem à frente do chefe do gabinete do Império, no interior do Quartel General.

Irapuan pôde imaginar o ideal que movia todos que ali (ressalvado o tempo) estavam ao seu redor: Haveria um chefe de governo que seria escolhido pelo povo, sem hereditariedade, para executar aquilo que fosse desejado pela coletividade.

No entanto, pensou ele, parece que nem tudo saiu como se pensava que seria. É que, embora ainda não se preocupasse com política, ele ouvia os comentários de seu pai, e de outros adultos, sobre tudo que se passava no País.

Após uma série de presidentes sucessivos, houve uma revolução conduzida por Getúlio Vargas, um deputado gaúcho, que no final do governo do Barbado (apelido de Washington Luiz), não permitiu que o suposto eleito assumisse o poder (Vargas declarou que a eleição fora ilícita, manipulada). O próprio Washington Luiz foi preso no Forte de Copacabana.

Depois não houve mais eleição de um novo presidente. Houve até revolução em São Paulo, contra Vargas. Anos depois, Getúlio Vargas fechou todo o Congresso e passou a ditar as leis, num governo que chamou de Estado Novo, mas que era uma Ditadura para ninguém botar defeito. Segundo o garoto entendia, não havia censura da imprensa não: Era o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) que fornecia os textos para serem publicados pelos jornais. Manifestações coletivas do povo eram reprimidas violentamente, por uma polícia de choque, Polícia Especial (bonés vermelhos), que descia do Morro de Santo Antônio, atrás do Largo da Carioca.

Outras ditaduras se mostravam com força excepcional no mundo atual, na Alemanha ( o Nazismo, com Hitler no poder) e na Itália ( o Fascismo, com Mussoline no poder).

Nesses países as crianças eram educadas, desde cedo, orientadas para as doutrinas nazi-fascistas. Participavam também de desfiles militares, vistas como eram, como os futuros soldados da nação.

Com a invasão da Polônia pelas forças alemães, estourou a Segunda grande guerra mundial. Os jornais dedicaram a primeira página inteira ao título: ESTOUROU A GUERRA.

Mais tarde, nós mesmos fomos levados a entrar na guerra, quando submarinos de Hitler afundaram nossos navios, matando muitos brasileiros inocentes.

Nossos pracinhas tiveram de combater na Europa, ao lado dos aliados, contra o Eixo. Lá alguns brasileiros tombaram, mas a vitória seria alcançada em 1945, após heróicos combates em Monte Castelo, Montese e outros.

Nessa época havia desfile de colégios, como o Colégio Pedro Segundo, na semana da Pátria, na Avenida,. Também as escolas públicas primárias eram obrigadas a integrar um coro orfeônico enorme, geralmente reunido no estádio do clube Vasco da Gama, em S. Januário, então o maior do Rio de Janeiro.

Bonitas canções, belo espetáculo, mas os ensaios necessários eram sofridos. Sofridos principalmente pelas professoras, que tinham de aturar o gênio violento do maestro geral Vila Lobos. As crianças menores tremiam de medo chegando a confundir o nome do maestro com Vira-lobo.

Muitas solenidades oficiais foram realizadas naquele grande estádio. Os grandes encontros do primoroso futebol carioca eram ali disputados, onde craques famosos como Leônidas, Tim e Batatais encantavam Irapuan e todos nós, com suas habilidades futebolísticas que, entretanto, mesmo surpreendendo os demais países com dribles sensacionais e lançando o gol de bicicleta, não trouxeram ao Brasil o almejado campeonato mundial, durante a era A. P. (antes de Pelé). A formação dos times era numa base de 2 zagueiros, 3 meio-de-campo e 5 atacantes, alem do goleiro, naturalmente. A bola era então normalmente conduzida sem passes de grande distância. Dribles havia muitos, e os brasileiros eram mestres nisso.

Os clubes que Irapuan conhecia bem eram o Flamengo, o Fluminense, o Botafogo, o América, o Vasco, o S.Cristóvão, o Bangu e o Bonsucesso. Conhecia de nome alguns de S.Paulo, como o Corintians, o São Paulo, o Palestra Itália e o Santos. A transmissão dos jogos era feita pelo rádio, narrados por locutores esportivos. Alguns se tornaram muito famosos, como o Ari Barroso (o mesmo compositor da Aquarela do Brasil), que festejava cada gol tocando uma gaitinha.

O garoto nunca teve a oportunidade de ver um jogo do Náutico, do Sport ou do Santa Cruz ( de Recife). Apenas ouvira falar deles, quando seu tio (cunhado de sua mãe), por motivo de serviço, foi transferido para Recife.

Sua mãe, querendo ter notícias da irmã e dos sobrinhos, escrevia cartas e aguardava resposta. Isto muitas vezes era mais rápido e imediato que um telefonema. Para telefonar para outro estado distante, era necessário inscrever-se em uma fila da Radional, ou coisa semelhante, e aguardar chamada para, em dia e hora em que a propagação permitisse o estabelecimento da comunicação em ondas curtas, poder falar. Aí o telefone, às vezes, funcionava.

Para lá chegar era necessário viajar uns cinco dias, de navio, ou muitas horas num modesto avião DC3. Durante o vôo entre aeroportos sucessivos, havia o lazer de contemplar a sombra da aeronave lá em baixo, correndo sobre florestas atlânticas que não tinham mais fim. Nesse tempo ainda não haviam anti-ecológicamente destruído toda aquela maravilha da natureza. Isto ocorreu posteriormente, principalmente na época da ocupação do planalto central brasileiro.

Houve, contudo, muitas coisas boas também, naquele período. Nossa indústria siderúrgica foi implantada, o que foi um grande passo para a economia futura.

No campo social também houve muita evolução com as novas leis trabalhistas.

Irapuan sabia que, quando seu pai foi acidentado no serviço, por motivo de falha de uma máquina da empresa em que trabalhava, ficou muito tempo impossibilitado para o serviço, acamado em tratamento doloroso. A empresa, uma poderosa multinacional, não só não ajudou nada nas despesas do tratamento, como também deixou de pagar-lhe o salário durante todo esse tempo, porquê não havia leis que a obrigassem a isto.

Em outros países, ou em outros tempos a empresa teria até de pagar uma indenização, além das despesas havidas. Somente as leis trabalhistas então implantadas corrigiram esse absurdo.

Lembrando dos comentários de seu pai, nessa época, virou-se para ver se dali se avistava o Corcovado. Não dava para ver não, mas ele lembrava muito bem da inauguração do monumento do Cristo Redentor. O pai chegou em casa com o jornal que noticiava o acontecimento, mostrando uma fotografia da mão do Cristo, comparada com a figura de um homem. A mão da estátua era maior que o homem. A estátua do Cristo Redentor, após cinco anos de construção, com cerca de trinta metros de altura, tornar-se-ia o monumento característico do Rio de Janeiro, assim como a Torre Eifel, em Paris, o Big Ben, em Londres ou a estátua da Liberdade, em Nova York. Inaugurada solenemente, em 1931, sua iluminação foi nesse momento acionada da Itália, por Marconi, através do rádio e aviões jogaram flores sobre o monumento.

Movido por um impulso interno, o garoto pensou logo no meigo pastor que se sacrificou ante a violência, e agora era ali homenageado. Irapuan concentrou-se num pedido de proteção para sua mãe, de quem julgava que nunca poderia se privar, bem como de toda sua família e amigos. ( * - ver jornais )

Entusiasmado com sua cidade natal, Irapuan passou a imaginá-la no futuro, ampliada, com novas grandes obras, como as da Central que se concluíam ou as do Quartel General, que se iniciavam. Talvez um novo estádio de futebol, maior ainda que o atual de S. Januário.

Mais ainda, grandes avenidas como os bulevares de Paris, que ele via nas fotografias e quadros de pintura. Ali mesmo, juntando as ruas de São Pedro com a General Câmara, poder-se-ia, demolindo o quarteirão intermediário, de casas velhas, formar uma grande avenida, maior que a rua Larga e que a avenida Central.

Uma super avenida como essa, no futuro, sem dúvida teria o nome daquele que era o grande poderoso do País: Presidente Vargas.

Esse era o super- presidente de então, que diariamente, costumava deslocar-se a pé, sempre em companhia de seu fiel segurança Gregório, do Palácio Guanabara, onde morava, próximo ao estádio do Fluminense, até o Palácio do Catete, sede do Governo, na rua do Catete, com jardins que se estendem até a Praia do Flamengo.

Em meio a divagação, entretanto, Irapuan notou falhas na sua imaginação. A super avenida, para ter utilidade mesmo, não deveria terminar ali no campo de Santana. Deveria continuar dando seguimento ao trânsito, até as margens do canal do Mangue e seguir até a ponte dos Marinheiros. Seria então necessário cortar o Campo de Santana e demolir também o quarteirão que se seguia até a praça Onze.

E do outro lado estava a Candelária, grande monumento histórico, que ficaria bem no meio da avenida. Demoli-la seria absurdo em matéria de cultura.

Nada demais em tirar uma faixa do Campo de Santana, ele era e continuaria bem grande.

O caso da Candelária, poderia se transformar em uma nova praça, com ela no meio, embora de costas para a avenida. ...Mas e a praça Onze, Meu Deus:

 

" Vão acabar com a Praça Onze;
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai:
Chora o tamborim, chora o morro inteiro;
Favela, Salgueiro, Mangueira estação primeira.
Guardai os vossos pandeiros, guardai,
Porque a Escola de Samba não sai "

 

Quem pensa que as escolas de samba não sairiam sem dúvida não as conhece, nem sabe o amor que seus componentes dedicam às mesmas. O desfile simplesmente poderia mudar de lugar, mas nunca acabar.

E a praça Onze continuaria a ser a Praça Onze, mesmo com a avenida Presidente Vargas passando por ela, ou próximo a ela, que se deslocaria um pouco.

O carnaval era a grande festa do Rio e não se restringia a um só lugar de desfiles.

Muitos dias antes do Carnaval, já o Rio estava em temporada de Carnaval. Os bailes a fantasia nos clubes carnavalescos e as famosas batalhas de Confete, em diversas ruas a cada dia tornavam essa época bem característica na Cidade.

As estações de Rádio bem antes do Carnaval já estavam divulgando o dia inteiro, as músicas de carnaval daquele ano, que falavam de Pierrot, Arlequim e Colombina, Palhaços, Piratas e todos os tipos populares.

Nomes como Braguinha, Lamartine Babo e Noel Rosa sobressaiam então, como compositores carnavalescos.

Os compositores de músicas carnavalescas criaram até a figura da rainha virtual do Carnaval, materializada num tipo de mulher, a cada ano. Assim um ano foi eleita a Mulata, provocando a concorrência colossal Vasco da Gama contra o Batalhão Naval. Depois veio a Moreninha, cujo coração era uma espécie de pensão familiar a beira-mar . Agora era a vez da Lourinha, de olhos claros de cristal.

Algumas batalhas de confete tornaram-se famosas, como a do Bulevar Vinte e Oito de Setembro e a Praça Sete (Barão de Drumont). A batalha de confete era o carnaval particular em uma rua, muito ornamentada com motivos carnavalescos, com direito a desfile de blocos e fantasias isoladas. O corso de automóveis era a maior característica das grandes batalhas de confete.

O corso era constituído por desfile de carros abertos ( nessa época quase todos os carros eram conversíveis ), em que algumas pessoas fantasiadas, sentadas sobre as capotas dobradas, cantavam e dançavam, lançando serpentinas e confetes. Os carros faziam um circuito fechado entre ruas vizinhas e em geral acabavam ligados pelas serpentinas atiradas de cada um deles para o da frente ou o de traz. O perfume dos lança-perfume, depois proibidos, espalhado intensamente pelo ar, era característico dessas batalhas.

Era comum haver concursos de blocos, de carros e de fantasias isoladas.

Nos três dias de Carnaval propriamente dito, os blocos e as fantasias, bem como toda espécie de farra se generalizava por toda a cidade.

Durante o dia eram comuns , nos bairros, os blocos de sujo. Não eram sujos não, apenas as fantasias eram simples, improvisadas, diferentes daquelas que seriam usadas à noite, nos blocos de verdade, nos desfiles ou nos bailes, ou simplesmente no passeio pela cidade.

Nos clubes havia bailes a fantasia e concursos de fantasia. O baile sempre terminava (aliás qualquer baile, mesmo fora do Carnaval) com a orquestra tocando a música Cidade Maravilhosa (ver letra e música do Hino da Cidade).

Os bondes, também nesse dia eram alvo e local da folia popular. A Light tirava os famosos anúncios dos seus carros, pois sabia que ficariam danificados durante a folia. Os carnavalescos subiam nos bancos, cantando e pulando, batendo no teto do bonde, ao ritmo dos sambas e das marchinhas de Carnaval.

Agora estamos no Domingo de Carnaval. A mãe de Irapuan já confecionara com esmero as fantasias dos meninos. O caçula vestiria um Pirata, a menina seria uma Havaiana e para ele ficava mais próprio um Tirolês ou simplesmente uma Camisa listrada de Malandro, como chamavam então.

Seu pai já adquirira, não sem algum sacrifício, o material necessário à farra dos filhos, a saber: rolos de serpentina, sacos de confete, um pandeiro ou reco-reco e um lança-perfume Rodouro (metálico, menos perigoso que a versão em vidro) e uma meia-máscara para cada um. Mas tudo isso só entraria em ação na parte da tarde e à noite, na ida da família ao centro da cidade.

Na parte da manhã eles formam com os garotos da vizinhança um bloco de sujo, improvisando fantasias com roupas velhas e papéis, bem como uma bateria de tambores e cuícas de latas vazias, reco-recos de raladores de coco, etc. Um deles porta um pires a ser estendido aos espectadores da rua, sugerindo uma gorjeta para o bloco. As músicas do carnaval do ano, aprendidas no rádio nos dias precedentes, são cantadas com alegria, sempre pulando ao som do bate-a-lata.

Na rua em que moravam , na qual talvez não passasse nem um veículo por dia, era possível atravessá-la correndo, como faziam, sem nem olhar para os lados, sem qualquer risco. Nessa rua só havia um morador possuidor de automóvel: um Ford da década de 20, de capota preta e partida por meio de uma alavanca que se aplicava junto ao pára-choque dianteiro. Raramente esse carro saia dali onde ficava pacientemente imóvel, e muitas vezes a garotada malvada esvaziava seus pneus por brincadeira de mau gosto.

Na rua vinham agora em correria desabalada, várias crianças pequenas, algumas rindo outras com cara de medo. Fugiam de mascarados que se divertiam dessa maneira. Eram um Gorila, uma Caveira, um Morcego e um Dominó, ameaçadores.

Algumas pessoas aproveitavam as fantasias com máscaras para, sem perigo de identificação, procurar os conhecidos e fazer brincadeiras ou passar trotes.

Ao entardecer, após os banhos, as crianças já com as novas fantasias, a família parte para a cidade, a ver o movimento na Avenida Central e depois irá assistir hoje, aos desfiles das escolas de samba, torcendo pela vitória de sua favorita.

Pegam o bonde, onde já muitos carnavalescos se divertem, cantando e pulando, ao som do bate e bate nas próprias partes do veículo, alem dos pandeiros, tamborins e reco-recos. Por sorte podem ter a companhia de algum conjunto de instrumentos de sopro, violões e cavaquinhos. A folia dura todo o tempo da viagem.

O coletivo passa junto ao Maracanã, que nada tinha a ver com futebol. No local, uma praça, há uma grande caixa d’água instalada sobre um alto pedestal.

Na cidade eles andam a pé apreciando todo o movimento ali reinante. A passagem pela Galeria Cruzeiro, entre a Avenida Central e o largo da Carioca, por onde circulavam os bondinhos de Santa Teresa, vindos dos Arcos da Lapa, proporciona espetáculos extras. Ali se reúnem blocos bem montados, fantasias caprichosas, alegria e humorismo a valer, além de muitos beberrões em ruidosa farra.

Ao longo da avenida Central, do mesmo modo que acontecia na Praça Onze, volta e meia via-se desfilar um grande bloco, com muita música, muito ritmo, grande bateria, muitas fantasias. Para isolá-los do público presente nas ruas, havia sempre uma grande corda bem grossa, tipo cabo de amarrar navios, a toda a volta do bloco, segura por vários integrantes do mesmo. Estes faziam muita força, ao invés de dançar. Mas eram voluntários satisfeitos, contagiados pela alegria geral. Assim se podiam ver e curtir o Bafo da Onça ou os Índios do Acaú.

Por vezes passavam blocos de frevo, importado do Recife, como os Lenhadores ou os Pás Douradas, com seu ritmo estonteante, passos acrobáticos e sombrinhas coloridas.

No desfile das escolas o entusiasmo era contagiante. Ainda porquê cada Escola tinha sua torcida fiel, como no caso dos clubes de futebol. Suas cores eram identificadas e ovacionadas estrepitosamente: a Verde e Rosa Mangueira, a Vermelho e Branco Salgueiro, a Azul e Branco Portela, etc.

Os passistas de cada uma exibiam-se com grande habilidade, ao som de sua bateria super ritmada e afiada cantando em coro com todas as alas, o samba enredo particular da Escola naquele ano. A porta bandeira com o mestre sala destacavam-se em suas evoluções com o estandarte que defendiam perante o julgamento popular. A ala das baianas sempre causava um grande efeito de conjunto, com o giro simultâneo daquelas saias rodadas sincronizado com os estribilhos da música entoada pelo grande coral, adicionado pelas vozes da torcida assistente. Isto é que era rodar a baiana, na verdadeira acepção do termo..

Ao final dos desfiles, a volta a casa era lenta, cansada e sonolenta, com disputa de lugares nas conduções, mas sem qualquer arrependimento: Voltariam sempre, para repetir o espetáculo.

Segunda feira a família viria de novo para a Avenida, ao anoitecer, ver o desfile dos ranchos, de que mais gostava a mãe dos garotos. Por parte dela havia também uma torcida em favor do Recreio das Violetas. Esse espetáculo constituía a versão romântica do Carnaval, ao som das marchas rancho, lentas e cadenciadas pelo bombardão, falando de lua, amores e pastorinhas.

Na terça feira, encerrando os desfiles, vinham ver os Préstitos, das Grandes Sociedades Carnavalescas: Democráticos, Tenentes do Diabo, Fenianos, Pierrots da Caverna. Eram as alegorias montadas sobre carros geralmente tirados por animais. Elas em geral eram moldadas em papelão e madeira, pintadas com tintas brilhantes e fosforescentes, com grande efeito sob a luz intensa dos fogos de bengala, coloridos, portados por auxiliares, ao lado dos carros. Nos carros, compondo seu motivo, alguns destaques em ricas fantasias. Acidentes algumas vezes aconteciam, até de sérias conseqüências, devido a indocilidade de animais agitados e assustados pelo ambiente anormal para eles, com muita gente, muito barulho e muitas luzes.

Irapuan, pesquisador nato e interior imaginava as vezes se não seria interessante reunir em uma só forma integrada, o melhor de cada uma dessas modalidades de desfile.

Quarta feira de Cinzas. Tudo volta à triste realidade do dia a dia, sem o reino fantasioso da Folia.

Triste? Não mesmo, éramos felizes e não sabíamos, pois dias muito piores viriam, em que a qualidade de vida seria bem mais baixa.

Os serviços normais voltavam a operar com regularidade. Muito mais lixo que o comum, produto dos dias do reinado de Momo.

Interessante observar o lixeiro correndo casa a casa dos bairros e recolhendo a lata de lixo que cada família deixava a sua porta.. A carroça de lixo à distância, movimentava-se a intervalos regulares de tempo e espaço, tracionada por dois burros uniformemente treinados em toda a Cidade, ao comando do controle remoto que era constituído pela voz do lixeiro, como por exemplo, para parar.: - ô...

Conta-se, nesta época, um pequeno caso do lixeiro e o burro.

Um cruzamento de ruas muito usado, principalmente por estudantes que de bonde iam para ou voltavam do Colégio, era o da rua Mariz e Barros com a S. Francisco Xavier. Depois do cruzamento não mais era a rua Mariz e Barros, mas sim a rua Almirante Cochrane (pronúncia Cócrane):

Um lixeiro procurou um telefone numa casa comercial próxima e pediu ao dono, licença para ligar para a sua empresa de serviço, a LU, pois tinha um grande problema.

Pegou no fone que estava pendurado no gancho, com a outra mão rodou a manivela da campainha, sendo logo atendido pela telefonista:

    • número, faz favor?...

Chegando a boca próximo ao microfone, na frente da caixa de madeira, ele pronunciou os cinco dígitos. Após algum tempo, foi atendido pelo seu supervisor, e relatou:

    • Senhor, tem um burro morto aqui na rua. Precisa vir buscar.
    • Qual é o lugar exato? Qual é a rua?
    • É a rua ... almirante não sei o que...
    • Assim não dá, diga o nome certo da rua.
    • Péra aí que eu vou ver de novo, tá difícil...

 

...e após um tempo um pouco maior ele voltou ao telefone e disse:

    • rua Mariz e Barros!
    • Mas não era essa rua que você estava dizendo!
    • Ah, eu arrastei o burro para lá.

 

Uns após outros, passavam pelas ruas os vendedores ambulantes, cada um deles com seu pregão (comunicação sonora) característico.

Era o peixeiro com duas cestas penduradas em pau roliço sobre o ombro, seguido por uma fila de gatos, o quitandeiro, batendo com um pedaço de pau no tabuleiro que levava sobre a cabeça, o tripeiro com seu burrico, o amolador, tirando um som agudo por meio de uma lâmina junto à roda que movimentava o esmeril. Havia também o vendedor de biscoitos de casquinha, batendo um click-click na mão, o vendedor de bala puxa-puxa, que batia uma vareta na lata em cima da cabeça. Romanticamente o homem do realejo tocava valsinhas melodiosas e um periquito tirava a sorte para as pessoas, por uns tostões. O barateiro vendia roupas comuns de porta em porta e o garrafeiro comprava garrafas vazias e jornais velhos. O padeiro trazia o pão até a porta nas horas mais adequadas. O leiteiro deixava a garrafinha cheia em cada porta., sujeita ao roubo de algum mendigo faminto. Bons tempos em que roubar era apenas isto.

Havia um outro recurso para obter o leite necessário: O Hígia era uma viatura cheia de leite, que corria as ruas, anunciando-se por um apito contínuo característico, para vender leite a varejo. Alem disso, não muito longe talvez se encontrasse uma vacaria, da mesma forma que as outras mercadorias de uso diário podiam ser encontradas nas quitandas, nas vendas (armazéns de secos e molhados), nas padarias, nos açougues, nos armarinhos, etc.

 

 

TÚNEL DE VOLTA NO TEMPO

 

 

 

* TRANSCRIÇÃO DE TRECHOS DOS JORNAIS DA ÉPOCA:

 

"A cidade está em festa e com ela o Brasil inteiro, pela inauguração, no ápice da mais linda montanha da capital da República, do esplendido monumento que a nação consagra ao Redentor da Humanidade. Não há coração que deixe de vibrar da mais pura alegria pela celebração do acontecimento grandíloquo. Cristo, do alto da colina magnífica, abençoa a cidade e abençoa o povo que lhe implora, ungido de fé, conduza os homens ao caminho sublime da perfeição.

Foi um espetáculo soberbo, de inesquecível majestade a bênção do monumento ao Cristo Redentor, pela manhã de hoje. Estavam presentes, no alto do Corcovado, as altas autoridades eclesiásticas e civis, e, enquanto se efetuava a bela cerimônia, uma esquadrilha de aviões deslizando, tranqüila, pelos ares macios da manhã lançava braçadas de flores sobre a imagem de Jesus. Os sinos de todas as igrejas bimbalhavam festivamente. Um momento de inenarrável emoção. (...)

A Companhia Radiotelegráfica Brasileira e Marconi, ele mesmo, haviam guardado um profundo sigilo em torno da prova que o grande inventor deveria fazer ontem à noite iluminando de Roma a estátua de Cristo Redentor. Marconi desde sexta-feira passada se comunicava com o Sr. René Bouglé, diretor geral da Radiotelegráfica, dizendo-lhe que desejava fazer domingo, às 19 1/4 , uma experiência de transmissão de onda elétrica afim de acender os refletores que deveriam iluminar a estátua. O diretor geral da Radiotelegráfica deu conhecimento do desejo de Marconi apenas aos diretores dos Diários Associados, Srs. Gabriel Bernardes, Paulo Rapaport e Assis Chateaubriand. Tratava-se de uma experiência e por isso mesmo os diretores da Radio não desejavam dar-lhes maior divulgação. (...)

Às 18 3/4 os diretores dos Diários Associados já se encontravam na sala de aparelhos da Companhia, que fica no 4o andar do edifício Hasenclever, na Avenida Rio Branco. (...)

Às 19 e 14 todos os corações palpitavam. Faltava um minuto, e esse minuto era uma eternidade. Uma eternidade tanto mais imensa e angustiosa quanto ela durou, pelo relógio da sala, 120 segundos.

Às 19 e 16 minutos todos os olhares da sala que se fixavam para a janela donde se divizava o Corcovado viram o céu cortado de um halo luminoso. Dentro da massa de nuvens, as fulgurações de luz rompiam bravamente a escuridão. Três minutos após, os rolos pardacentos se dissipam e o Cristo branco, com as suas mãos imensas de perdão e de ternura, fulgia no topo da montanha, inundado de claridade boreal. O milagre de Marconi se tinha traduzido em todo o seu esplendor." Diário da Noite, 12 de outubro de 1931.

"A data de hoje transcorre, com as imponentes cerimonias liturgicas que se estão a celebrar, festejando a inauguração do monumento do Cristo Redentor, ficará nos anais do catolicismo como um dia enaltecido por alta, significativa e eloquente afirmação de fé.

Do país inteiro e ainda de vários outros pontos do continente acorrem à formosa capital do Brasil, guiadas pelos báculos pastorais de cinco dezenas de veneráveis prelados, milhares de peregrinos cristãos, os quais, nesta manifestação de crença que redunda também numa demonstração de fraternidade, trazem a oblata das suas preces contritas ao Cristo-Rei. (...)

Hoje, às 16 horas, começará na praia de Botafogo, a inauguração oficial do Monumento a Cristo Redentor. Nessa ocasião proferirão breves palavras, D. João Braga, Arcebispo de Curitiba; D. José Pereira Alves, Bispo de Niterói; Cônego Dr. Henrique Magalhães, professor Alcebiades Delamare Nogueira da Gama, da Faculdade de Direito e Mario Michelotto, em nome dos operários católicos. Logo após, a estátua monumental de Cristo Redentor será iluminada da Itália, pelo senador Marconi. Em seguida à iluminação, haverá um grandioso préstito luminoso em honra de Cristo Redentor. Desfilarão as Ligas Católicas, podendo no mesmo tomar parte todos os católicos, munidos de lanterna.

O cortejo luminoso será em terra e no mar, porquanto os pescadores fiéis às tradições do nosso povo, darão o seu concurso, comparecendo em os seus barcos. Além do mais também as lanchas e outras embarcações aderiram. A nossa marinha também concorrerá para o maior brilho da festa, iluminando especialmente alguns dos nossos vasos de guerra. (...)" A Esquerda, 12 de outubro de 1931.

"Inaugura-se, hoje, o monumento a Cristo Redentor, ereto no cimo da montanha do Corcovado. Obra de arte que diz, eloqüentemente, do acendrado espírito religioso dos católicos no Brasil, fica a simbolizar, através da majestade da obra de arte, os anseios de fé e de paz que animaram aqueles que empreenderam as cruzadas em prol do seu levantamento no alto da montanha mais elevada da Guanabara. (...)" Diário de Notícias, 12 de outubro de 1931.

"A cidade assistiu, ontem, deslumbrada, com a inauguração do monumento do Redentor, mais uma experiência sensacional, realizada, da Itália, por Guglielmo Marconi, na data histórica da descoberta da América.

Um gênio da ciência contemporânea iluminou, de sua pátria distante, berço do Catolicismo, e onde nasceu o descobridor do novo continente, a imagem de Cristo, fazendo-a resplandecer no Corcovado à hora exata que fora anunciada. (...)

Às dezenove horas, diante dos poderosos aparelhos da Companhia Radiotelegráfica Brasileira, o Sr. Bouguier, com os fones aos ouvidos recebe de Coltano a hora justa. Daí a quinze minutos, Marconi enviaria através da estação italiana a centelha elétrica que deveria mover a alavanca para a iluminação do monumento a Cristo Redentor, no alto do Corcovado. (...)

O Sr. Vittorio Cerrutti, embaixador da Itália junto ao governo do Brasil, recebeu, às 19.20 horas, a seguinte mensagem de Guglielmo Marconi.

- Sinto-me sobremodo satisfeito pelo fato de um feixe de ondas, por mim lançado no espaço, iluminar a estátua gigantesca do Cristo Redentor, que os brasileiros acabam de erigir sobre o Corcovado, como símbolo de sua fé, invocando a proteção divina para o seu país e para a humanidade. Envio uma saudação fervorosa ao Brasil, a nobre nação na qual tantos compatriotas meus t6em encontrado uma segunda pátria. Comprazo-me em haver juntado um novo elo à forte cadeia que estreita a Itália ao Brasil e que permite às duas grandes nações latinas irmãs uma elevada colaboração em prol do progresso e da civilização do mundo. Roma, 12 de outubro de 1931. (a) Guglielmo Marconi." O Jornal, 13 de outubro de 1931.

"Apesar do tempo mau que reinou ontem, nesta cidade, correram imponentes as festas de inauguração solene do monumento de Cristo Redentor, erguido no alcantil imponente do Corcovado.

Pode-se dizer, que toda a população carioca prestou, ontem, suas homenagens ao divino profeta do Bem, cuja religião, fecundada com o sangue generoso do martírio calvariano, já atravessou quase dois mil anos, resistindo das mais dolorosas vicissitudes às mais desenfreadas tempestades, às mais dramáticas investidas da heresia e da mentira, para surgir, cada vez mais belo, mais sugestivo, mais radioso, na sua eterna pureza.

Aquela imagem que se ergue no Corcovado não é apenas a representação do fundador de uma religião. É, acima de tudo, o símbolo de todo o idealismo de bondade, de amor, de perdão e de fraternidade. E todos nós, neste momento de incertezas, de dúvidas, de apreensões que invade a Terra, precisamos ter a palavra do Mestre bem diante dos olhos, ritmando o nosso pensamento, lapidando a nossa fé, inspirando a nossa consciência. (...)" Diário Carioca, 13 de outubro de 1931.

 

 

 

VOLTAR